Não deixa de ser curioso que tenha dado ao escrito anterior o título de "sobrevivência". Podia tê-lo alterado, mas prefiro que ele fique a asinalar a minha intenção de relatar o esforço inaudito, sobrehumano que eu fiz para que aquele jornal sobrevivesse.
Havia dias que me fechava no gabinete de que me servia para, deitando-mo no chão e colocando os pés em cima da secretária, sentisse algum alívio da dor que sentia no peito. Da qual não falava a ninguém.
Tinha uma equipa maravilhosa, que confiava em mim e desempenhava o seu papel a contento. Ninguém protestava porque tinha salários em atraso, porque era necessário fazer um forcing até às tantas para fechar o jornal.
A maior parte das pessoas que comigo trabalhou naquele projecto entendia-o como uma espécie de "missão".
A jovem administradora, quando ficava com as contas a zero, não se cansava de me perguntar : "e agora, vamos fazer o quê?"
"Tem calma", era a resposta, mesmo quando sabia que as soluções estavam longe.
Toda a gente sabia quando eu viajava. E...se viajava, havia alguma coisa em vista. O povo ficava à espera e...sempre sabia da minha chegada, porque, na escada de acesso ao primeiro andar do nº.105 da Possidónio da Silva, ficava o cheiro da minha água de colónia - a mesma que ainda hoje uso.
Normalmente, as notícias eram boas. Para eles, bastava um olhar para a minha cara.
Cheguei a ir e voltar, no mesmo dia, à Cidade da Praia. Naquele tempo não era fácil!
Até que um dia percebi que não valia a pena continuar a lutar pela sobrevivência de um projecto que toda a gente queria morto - mesmo aqueles a quem mais interessava. Por isso, o matei. Com as minhas próprias mãos!
2005/09/26
2005/09/25
A Sobrevivência
Pelo que atrás fica narrado está claro o cenário: o jornal "África" funcionava numa aflição só. A mim cabia-me a responsabilidade de o dirigir, pagá-lo e - já agora - lê-lo.
As receitas eram provenientes da publicidade, mas as agências não arriscavam no " África". Houve até um caso com uma das grandes agências da altura e que geria a conta de publicidade de uma empresa que nos apoiava com alguma consistência. Pura e simplesmente, a agência não nos pagava.
Mandei para contencioso, tribunal, essas coisas. O pessoal chamou-me louco, mas eles pagaram para não perderem a confiança do mercado. É verdade que nunca mais nos mandaram um anúncio. Nesse domínio, a conspiração também era aberta.
Para além da publicidade que íamos conseguindo com o estratagema dos cadernos especiais sobre isto, sobre aquilo - uma maneira de nos enquadrarmos na onda medíocre dos gestores nacionais, havia um acordo com Cabo Verde, já descrito e um outro, muito periclitante, que funcionava umas vezes e outras não, com Angola.
Um parêntesis para voltar a dizer a Carlos Veiga e aos seus brilhantes conselheiros que os apoios cabo-verdianos não passaram de uma gota de água.
Os verdadeiros apoios vinham de Angola, mas sempre de modo a que não nos deixavam respirar. Eram sempre para pagar o passivo. Em sete anos de actividade, o "África" nunca teve a mínima possibilidade de investir, de planear o que quer que fosse.
Uma pequena estória a este propósito: a certa altura eu precisava de falar urgentemente com uma das pessoas que geria este apoio e mandei-lhe uma mensagem por uma amigia que foi a Luanda. Resposta: "não me importo de falar com o teu amigo, se dormires comigo..."
Consegui, por causa desta canalhice sem nome, mudar o interlocutor, mas as respostas eram sempre pouco claras, ou não existiam.
Finalmente, em 1991 depois de longas conversas com alguns responsáveis angolanos, foi-me "imposta" a ideia de transformar o "África" numa revista especialmente dirigida à comunidade angolana em Portugal.
Resisti à ideia, mas percebi a intenção. Desse modo anulavam o carácter marcadamente independente do Jornal e sujeitavam-nos a uma dependência clara.
Todavia, em desespero de causa( havia as pessoas...) acabei por aceitar a ideia, mas, mesmo assim, os tais apoios seguros nunca chegaram. Até que, em Maio daquele ano, telefonei para Luanda, dizendo: ou se concretizavam os projectos, ou eu fechava o jornal.
Do lado de lá voltaram as promessas, mas no dia 31 de Maio o jornal fechou mesmo.
Antes disso liquidei todas as dívidas existentes. Apenas fiquei a dever alguns impostos ao Estado, na esperança de que o trespasse das instalações permitisse liquidá-los.
Mais uma vez fui apelidado de louco. Ninguém fazia isso. As empresas, quando fechavam pagavam ao Estado e ficavam a dever aos fornecedores.
Ainda me lembro do diálogo com o dr. Rudolfo Crespo, então gestor da Imprinter, a Gráfica onde o "África " era impresso.
"Oh! Leston, você está a dizer-me que vem fazer contas para fechar o jornal?... Nunca na minha vida tal aconteceu...Sempre que alguém fecha um jornal, esquece-se de nos pagar..."
O resultado foi que, de repente, corri o risco de ficar sem casa e aquelas coisas todas que fazem parte da nossa vida e que sempre custam a ganhar a quem tem de trabalhar.
Instalou-se a crise do Cavaco e as instalações, cujo trespasse valia na altura 10 mil contos, acabaram por ser passadas a troco do pagamento das dívidas ao Estado e à Segurança Social.
E agora que a estória dos financiamentos está contada e já se sabem as razões por que fechou o África, vou abri espaço para falar das coisas que fizémos, das pessoas que por lá passaram. Vão ver que há razões de sobra para ter saudades daquele projecto.
2005/09/18
As Tentativas Espanholas
Já aqui referi que tentei apoios espanhóis para o "África", a propósito do incidente com o Eugénio Inocêncio, o fato os sapatos e o resto.
A certa altura foi visível que Espanha tentava substituir, nomeadamente em Angola, Portugal. Afinal também não era difícil. Felipe Gonzalez procurava, com inteligência, parceiros que lhe abrissem possibilidades em África. Durante a visita de Pedro Pires a Madrid, em Fevereiro de 85, essa intenção ficou clara.
Em Portugal tentava-se, por todas as formas, eliminar o "África", começando pelas distribuidoras, passando pelos postos de venda que o escondiam por forma a não ser visto. As autoridades com alguma obrigação de apoiar o projecto, assobiavam para o lado. O jornal era bom porque inspirava uma corrente de informação a que bastava acrescentar ou tirar pequenos pormenores. Havia mesmo gente que plagiava textos nossos, virgula por vírgula, só o nome do autor mudava...
Os apoios africanos dependiam muito das próprias concepções de informação. Apoio para eles significava a possibilidade de manipular e eu não abria mão. Lembro-me, inclusivé, de alguns episódios curiosos: gente notável da redacção que vinha quase solicitar-me uma intervenção nos textos, receosos de que alguma coisa pudesse prejudicar a via negocial. A todos respondi sempre da mesma forma: ao convidá-los tinham a minha confiança, tudo quanto escrevessem era da responsabilidade deles.
Todavia, o jornal tinha de se pagar; o grupo de profissionais que dependia exclusivamente das receitas era importante e eu tratava de me mexer.
Falou-se na possibilidade de um grupo de empresários madrilenos estar interessado na possibilidade de nos apoiar e aí fui eu. Jantar com uma personalidade amiga de Felipe Gonzalez, hotel marcado numa das transversais da Gran Via. Oito horas da noite telefonei. "Jantar? Ainda é cedo. Eu depois passo aí" - disse a figura.
Onze horas da noite, apareceu o homem, um senhor. Conduziu-me até um restaurante fora do centro, com uma vista esplendorosa sobre a cidade e, enquanto esperávamos pelo jantar foi bebendo Gin tónico: mais de metade do copo com gin e um pouquito de água tónica.
Jantámos. Falámos e ele demonstrou o mais profundo espanto pela atitude das autoridades portuguesas, recusando o apoio a um jornal que obviamente era um instrumento poderoso.
Tinha, claramente, pensado na possibilidade de mobilizar apoios para o "África", mas chegou à conclusão que tal não fazia sentido. Deu-me o exemplo do que eles, espanhóis, faziam com a América Latina.
No final do jantar, para aí umas três da manhã, o meu anfitrião conduziu-me a alta velocidade até ao meu hotel. Na despedida ficou o lamento por uma recusa que era uma atitude de inteligência - dizia ele. Um apoio espanhol a um jornal português dedicado a África, naquela altura, abria a possibilidade de diversos conflitos.
Voltei a Lisboa no dia seguinte sem sequer o esboço de uma boa notícia para a minha gente. Todos o perceberam sem a necessidade de grandes conversas.
A certa altura foi visível que Espanha tentava substituir, nomeadamente em Angola, Portugal. Afinal também não era difícil. Felipe Gonzalez procurava, com inteligência, parceiros que lhe abrissem possibilidades em África. Durante a visita de Pedro Pires a Madrid, em Fevereiro de 85, essa intenção ficou clara.
Em Portugal tentava-se, por todas as formas, eliminar o "África", começando pelas distribuidoras, passando pelos postos de venda que o escondiam por forma a não ser visto. As autoridades com alguma obrigação de apoiar o projecto, assobiavam para o lado. O jornal era bom porque inspirava uma corrente de informação a que bastava acrescentar ou tirar pequenos pormenores. Havia mesmo gente que plagiava textos nossos, virgula por vírgula, só o nome do autor mudava...
Os apoios africanos dependiam muito das próprias concepções de informação. Apoio para eles significava a possibilidade de manipular e eu não abria mão. Lembro-me, inclusivé, de alguns episódios curiosos: gente notável da redacção que vinha quase solicitar-me uma intervenção nos textos, receosos de que alguma coisa pudesse prejudicar a via negocial. A todos respondi sempre da mesma forma: ao convidá-los tinham a minha confiança, tudo quanto escrevessem era da responsabilidade deles.
Todavia, o jornal tinha de se pagar; o grupo de profissionais que dependia exclusivamente das receitas era importante e eu tratava de me mexer.
Falou-se na possibilidade de um grupo de empresários madrilenos estar interessado na possibilidade de nos apoiar e aí fui eu. Jantar com uma personalidade amiga de Felipe Gonzalez, hotel marcado numa das transversais da Gran Via. Oito horas da noite telefonei. "Jantar? Ainda é cedo. Eu depois passo aí" - disse a figura.
Onze horas da noite, apareceu o homem, um senhor. Conduziu-me até um restaurante fora do centro, com uma vista esplendorosa sobre a cidade e, enquanto esperávamos pelo jantar foi bebendo Gin tónico: mais de metade do copo com gin e um pouquito de água tónica.
Jantámos. Falámos e ele demonstrou o mais profundo espanto pela atitude das autoridades portuguesas, recusando o apoio a um jornal que obviamente era um instrumento poderoso.
Tinha, claramente, pensado na possibilidade de mobilizar apoios para o "África", mas chegou à conclusão que tal não fazia sentido. Deu-me o exemplo do que eles, espanhóis, faziam com a América Latina.
No final do jantar, para aí umas três da manhã, o meu anfitrião conduziu-me a alta velocidade até ao meu hotel. Na despedida ficou o lamento por uma recusa que era uma atitude de inteligência - dizia ele. Um apoio espanhol a um jornal português dedicado a África, naquela altura, abria a possibilidade de diversos conflitos.
Voltei a Lisboa no dia seguinte sem sequer o esboço de uma boa notícia para a minha gente. Todos o perceberam sem a necessidade de grandes conversas.
2005/09/14
"Um Homem de Mãos Limpas"
Como se deve imaginar, a Redacção do jornal "África", pela influência que ele desenvolvia, sobretudo nos territórios africanos que falavam português, sofria inúmeras pressões. Todavia, a equipa era coesa e a linha editorial era bem entendida. Não podíamos, em nenhuma circunstância, confundir-nos com um jornal local, nacional. Nós tínhamos uma visão global e mesmo quando criticávamos aspectos das realidades nacionais - o que acontecia muitas vezes - não o fazíamos com a intenção de interferir no dia-a-dia.
As negociações para o apoio ao "África" desenvolviam-se a vários níveis, com vários interlocutores, algumas das quais já não precisavam da minha presença. A minha condição era a da não interferência.
Numa das minhas prolongadas e didíceis viagens a Luanda - é um pouco difícil precisar as datas - recebi um telefonema de Cabo Verde. Um amigo, que fazia parte do grupo de pressão para viabilizar o projecto "África" perguntava-me se já tinha lido o último número do jornal de que eu era director. Que não! O jornal chegava a Luanda sempre uns dias mais tarde e, portanto, não sabia o conteúdo. Era pena - dizia-me a voz amiga, porque com um texto cujo título era, mais ou menos "Angola precisa de um Homem de Mãos Limpas"... não valia a pena continuar a conversar com ninguém.
O texto eliminava Eduardo dos Santos da cena política, sugeria o mesmo em relação a Savimbi e promovia Manuel Lima.
Fiquei estarrecido quando li.
Por todas as razões: porque Manuel Lima era um desconhecido, embora tivesse desenvolvido uma intensa campanha de promoção em Lisboa, apelando ao seu papel de "comandante do exército de libertação de Angola", uma ficção da sua cabeça e porque o nosso interlocutor era Eduardo dos Santos. O Jornal "África" era claramente anti - savimbista.
O texto tinha sido cozinhado por José Eduardo Agualusa, um jovem com talento para a escrita, mas com mais talento ainda para a intriga e para a mentira. Adepto da Unita, amigo do chamado médico de Savimbi, Fernando Morgado, abusou da confiança de João Van Dunem, que se distraiu enquanto eu estava em Luanda. Quando voltei a Lisboa tive que reorganizar a Redacção, mas as negociações, quase concluídas , para um apoio ao "África", com a dignidade que eu sempre exigira estavam comprometidas.
2005/09/03
Estratégias
Ao referir especificamente o nº 14 do "África Jornal" faço-o com vários objectivos, o mais importante dos quais não é o de dizer, como o outro, "paizinho já sou ministro". A direcção do jornal era para mim, do ponto de vista formal, o menos importante. O que me interessava era tê-lo ao serviço de uma estratégia inteligente.
Eu tinha a estratégia e precisava de apoios para ela. Em Portugal era (é) o que se sab(e)ia: ninguém vai além do seu quintal: um jornal sem tutela é um risco : "quem é este gajo, com ideias globais de informação, a querer fazer de um jornal o elo de ligação entre o Norte e o Sul, anti-soviético e anti-americano, a favor das independências mas contra quem as governa, defendendo Cabo Verde como o único território cuja independência deu vantagens ao seu povo...?"
Só pode ser agente da CIA - diziam alguns. Do KGB - diziam outros. A este propósito, o Fernando Alves, que assinava uma crónica fabulosa com o título genérico Bo(u)é de Sede (é que ele escrevia com o, mas, de facto é com u) chegou a escrever mais ou menos: "que raio ...mandem lá o cheque...)
E a estratégia era simples. Não contava com Portugal, não apenas porque, do ponto de vista político, não dava confiança, mas também porque os políticos e empresários portugueses entendiam que a defesa dos seus chamados interesses em África passavam pela crítica sistemática ao que lá se passava e pelo apoio a tudo quanto fosse oposição. O neo-colonialismo era uma tentação. O estabelecimento de relações de igualdade eram ( e ainda são) uma miragem.
Em Cabo Verde encontrei a inteligência necessária à compreensão do meu projecto. O meu interlocutor foi sempre Renato Cardoso. A primeira vez que falei com Pedro Pires foi quando me fui despedir dele, no final do meu contrato como correspondente da ANOP. A segunda, foi em Madrid, em Fevereiro de 1985.
Aí falámos do projecto "África Jornal" e da urgência em arranjar apoios para o transformar rapidamente num quinzenário. Nessa altura, manifestou dúvidas quanto ao objectivo do semanário, dúvidas que sempre manteve.
Era ( e é) um espírito avisado, cauteloso e, embora não tendo experiência de gestão de jornais, avaliava bem as dificuldades de um jornal com aquelas características com uma periodicidade semanal.
No essencial, a nossa conversa de Madrid ractificou o interesse de Cabo Verde no apoio a um jornal com as características do "África Jornal", virado para a defesa dos interesses africanos, numa tentativa de colocar o Continente na rota da comunicação internacional. Com um especial interesse: o apoio à luta pela Independência da Namíbia e ao fim da guerra em Angola.
Nessa base, como o governo de Luanda era bombardeado todos os dias por uma comunicação social simpatizante da UNITA e de Savimbi, pró-americana e anti-MPLA, o nosso jornal defenderia, não a política interna do MPLA, mas a estratégia de conversações multilaterais para o fim da guerra, a independência da Namíbia e tudo o que lhe estava associado.
Nessa sequência, fomos o primeiro jornal a defender a retirada das tropas cubanas de Angola, como contrapartida à Independência da Namíbia. Esta era também uma ideia cabo-verdiana, que tinha sido defendida por Pedro Pires junto de Fidel de Castro, durante uma semana que o Primeiro Ministro caboverdiano passou em Havana, com uma equipa de que fazia parte Renato Cardoso.
Castro apreciou particularmente as ideias de Pires e eu acredito que aceitou a ideia da retirada depois de ter ouvido a posição cabo-verdiana.
O apoio cabo-verdiano passaria pela publicidade de empresas públicas e pelo financiamento directo possível, sempre com a ideia de mobilizar apoios angolanos que compensariam os avanços da Praia. Na prática, o apoio governamental cabo-verdiano seria reposto, assim que Luanda percebesse o interesse de nos apoiar.
Ao longo dos tempos, também Aristides Pereira desenvolveu contactos com este objectivo. Todavia, algumas coisas não correram bem, porque eu não quis, nunca, sacrificar a ideia base daquele jornal: éramos independentes, não havia censura e toda a gente que escrevia conhecia os objectivos e a linha editorial do "África Jornal". Não foi bem assim...
2005/09/02
O 14º Número do "África Jornal"
O nº13 do "África Jornal" tinha uma reportagem de um visita de estado de Pedro Pires, então primeiro-ministro de Cabo Verde, a Espanha. Acompanhámos a par e passo a viagem. A intenção correspondia a uma nova estratégia: queríamos que os dirigentes africanos dos Cinco sentissem que também podiam ter um acompanhamento por parte da comunicação social.
Lembro-me bem que Felipe Gonzalez fez uma conferência de imprensa conjunta com Pedro Pires e se surpreendeu com o tipo de perguntas que lhe foram feitas pela nossa equipa (eu e o João Van Dunem). Mas percebeu e reagiu com simpatia.
No regresso de Espanha tinha o Xavier decidido a abandonar o projecto.
O nº14, de 3 de Março de 1985, já tem no cabeçalho o meu nome como director e o de João Van Dunem, como chefe de redacção.
Vale a pena contar alguns dos factos que medeiam o meu regresso de Cabo Verde em Setembro de 1984, no final do meu contrato como correspondente na Cidade da Praia, onde fui substituído pelo Rui Parracho, que, mais tarde, se confessou surpreendido com a minha recepção.
Na ANOP, então dirigida pelo Jaime Antunes, havia a ideia de que eu era "um fulano irrascível", muito ligado, por razões sentimentais, aos africanos. Afinal, não era nada "intratável"e o Rui foi tratado como VIP e nasceu, de resto, entre nós, uma forte amizade.
Quando cheguei a Lisboa estava convencido de que a minha experiência em África e a rede de contactos que, entretanto, tinha criado, poderiam ser úteis à agência. Fazia todo sentido integrar a secção de África e, sobretudo, não ficar amarrado a uma secretária, a traduzir os telexe's das agências internacionais.
Recomecei a trabalhar em Outubro e desesperava-me a tentativa de me esquecerem. O director, Jaime Antunes, que tinha montado na ANOP uma secção de jornalismo económico, a primeira, que depois transferiu para o seu "Semanário Económico" em peso, nunca quis falar comigo.
Um dia encontrámo-nos num corredor e eu disse-lhe que era urgente falarmos. Encostou um pé à parede, em atitude paciente: "Diz!..."
Virei-lhe as costas e, nessa mesma tarde, aceitei a porcaria de uma indemnização que a ANOP estava dar a quem quisesse sair.
Todos os meus colegas ficaram admirados - em Portugal ninguém se demite.
No dia seguinte estava em Carnachide para dar alguma força ao "África Jornal". Na prática, estava desempregado, porque o jornal não podia pagar-me salário. Desempregado mas cheio de força para o "meu projecto".E curiosidade acerca da ANOP. Jaime Antunes era o submarino, foi ele que acabou com a agência, juntando-a à NP.
A posição dele percebi-a na altura. Houve outras, todavia, que só mais tarde entendi, como por exemplo as dos membros das direcções técnica, financeira e comercial.
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