2005/11/27

Democracia

O tempo é pouco, mas, de vez em quando, lá folheio os volumes em que tenho o "África" encadernado para, por um lado,me surpreender com o que, com tão poucos meios fazíamos, e, por outro, para descobrir os caminhos do progresso de um Continente aparentemente condenado à miséria.
Os problemas de há vinte anos são os mesmos de hoje. Alguns deles ampliaram-se e poucos se resolveram.
Mas não é apenas em África. Em Portugal também. Está tudo na mesma e, por exemplo na Comunicação Social, está pior.
Atentem no que eu escrevia no dia seis de Outubro de 1988, na "DIRECTA":
Uma das condições indispensáveis à definição das chamadas democracias convencionais é o direito à liberdade de expressão.
Todos os estados que se definem naquele campo fazem questão em afirmar as garantias convenientes a esse direito fundamental.
Portugal assim tem funcionado nos últimos anos. As afirmações sucedem-se e não há quem, querendo demonstrar o contrário, consiga romper a barreira de tabus entretanto erguida.
Para os observadores estrangeiros e para a maioria do público português está demonstrado, não vale a apena sair a terreiro a afirmar dúvidas.
Contudo, o direito à livre expressão está tão limitado como todo o resto. O edifício legal que garante o seu exercício é cada vez mais favorável aos grandes grupos económicos, políticos, de pressão, numa palavra.
E isto, quando o Estado se afirma por aquilo a que se chama a não intervenção na sociedade.
Essa não intervenção tem significado transferência e abdicação.
Transferência de controlo para os grandes grupos económicos e abdicação das responsabilidades no que diz respeito aos direitos das minorias. Pelo menos no que diz respeito à liberdade de informação.
Liberdade de informação que passa muito pela liberdade de circulação das ideias.
Hoje, em Portugal, é quase impossível um jornal que não esteja tutelado por um grupo económico circular. Por este andar, a opinião portuguesa será cada vez mais a opinião dos grupos que se vão (re)organizando.
É evidente que eles têm o direito de tentar, mas o Estado tem a obrigação de proteger todos os outros.
Dezassete anos volvidos e o panorama é bem mais tenebroso. Em termos de comunicação social vivemos num país da América Latina, nos seus piores tempos.

2005/11/06

Bispos

Já lá vão quase dois meses que não acrescento nada a este blogue. A dificuldade está na falta de tempo que tenho para ir olhando as páginas que fomos escrevendo nos sete anos que durou a aventura. O que era importante reproduzir de memória, está feito. Agora, importa salientar a capacidade de intervenção revelada e o modo como utilizávamos um instrumento poderoso, com era o "África".
É natural que me detenha mais nos textos que eu próprio escrevi - aqueles que assinei, porque os outros já não os consigo identificar.
Durante a maior parte do tempo em que o "África" existiu assinei uma coluna com o título de "Directa". Era ali que eu afirmava de forma clara e sucinta o que pensava sobre certas questões.
Não resisto à reprodução de uma delas, publicada em 21 de Setembro de 1988:
«João Paulo II esteve na África Austral.
Na mesma altura em que o chefe da Igreja Católica viajava por terras de África, um bispo português, o arcebispo de Braga, D. Eurico Dias Nogueira, fazia, no Santuário da Penha, em Guimarães, declarações bizarras.
Servindo-se do púlpito, D. Eurico atirou aos fiéis: " a descolonização foi a página mais negra da História quase milenar de Portugal".
Desconheço se algum dos presentes reagiu.
Também não sei se num santuário as pessoas têm o direito democrático de responder a afirmações tão pesadas como esta.
E mais esta: Em Angola e Moçambique verifica-se a "ausência total de democracia, pela imposição do regime unipartidário, de inspiração marxista-leninista".
D. Eurico foi bispo na Beira (Moçambique) e no Lubango (Angola).
Desconheço se na Beira se portou como um democrata. No Lubango não. Foi um bispo autoritário, rodeado de luxos e amigo dos ricos. O partido único de então garantia-lhe toda a sorte de privilégios - contra os quais nunca ouvi a sua voz levantar-se, embora, na altura, tivesse toda a elegitimidade para o fazer, já que era cidadão de pleno direito, funcionário do estado novo.
A que propósito vem agora falar de Angola e Moçambique no Santuário da Penha?
Porque não fala da exploração da mão de obra infantil que se processa ali mesmo, debaixo dos seus pés?
Será que o papa, depois da sua viagem a África, não pode pôr a funcionar os mecanismos do partido único que governa a Igreja e determinar que fiquem calados os bispos que não se atrevem a falar das realidades pastorais que os rodeiam?

2005/10/09

Reedição

Para ir alinhavando parte da estória do "África", sempre que posso vou folheando o dito. Hoje tinha a intenção de contar a minha viagem a Cabo Verde na comitiva de Cavaco Silva, num C-130 para lá e no avião da TAP para cá e em que tive o desgosto de ouvir o então vice-presidente e financiador do PSD, presidente da Portugal Telecom, engº. Luís Todo Bom dizer que o "África " era "uma merda" e não percebia a razão porque eu viajava na comitiva.
Era o azedume do PSD, que não entendia a posição do "África" relativamente à inexistência de uma política africana. Era um desabafo de alguém suficientemente medíocre e sectário para não acreditar que alguns anos mais tarde poderia ter que sujeitar-se a prestar contas por actos de gestão perfeitamente danosos para a empresa a que presidia, simplesmente porque o tal passageiro "a mais" se lembrou de mandar executar uma auditoria a um sector da empresa que dependia directamente dele.
A estória, todavia, fica para outra vez, porque hoje não resisto à transcrição de uma crónica que assinei num jornal de 28.05.86 , cujo conteúdo se mantém totalmente actual.
Directa
Este jornal é diferente. Não estou a dizer que é melhor ou pior. Aqui reflectimos ainda o espírito das palavras que servem para galardoar lutas velhas contra a repressão da informação - entre outras coisas.
Este jornal é ponto de encontro para muita gente - que ainda acredita. Gente que se reúne em "tascas" operárias desta Lisboa que é, cada vez mais, um mundo novo, que a mim, particularmente, se abre à descoberta.
Neste jornal, e em Lisboa, continua a ser possível falar de África, sonhar com África, mas sem os limites apertados, definidos por gente que, em nome de África, transportou para África ideias e práticas das cidades que já não têm "tascas" e tudo industrializaram.
Neste jornal ainda nascem lágrimas livres em olhos de gente que circula por aí, à procura do espaço aberto, do cheiro a terra molhada,
Rolam ainda algumas que já não são de saudade, mas de raiva, pela esperança perdida, à vista das raízes desenterradas, sujeitas ao frio, à chuva e ao calor. Há lágrimas que choram a cor perdida das tardes de cacimbo.
Umas e outras são, contudo, determinação - em ficar, de raízes à mostra.
Neste jornal não há corredores alcatifados, segredos de bastidores. Anulou-se a gravata, decretou-se o amor como lei fundamental da vida - aqui fala-se com o coração.
Por isso somos assim, agressivos.
Por isso, somos assim, abertos à ternura de palavras como irmão, solidariedade, terra.
Por isso, podemos dizer aos homens das gravatas, que pisam chãos alcatifados e sussurram nas esquinas intrigas de poder, que parte da verdade está connosco.
Por isso, digo hoje - também em nome dos que por aqui passam - que os problemas com que parte de África se debate se resolvem com os filhos de África que por aqui andam a penar competências sem paixão.
Também por isso me atrevo a dizer que as dependências forjadas em alianças compreensíveis se resolvem com as alianças da terra, ditadas pelo coração.
A falta de amor está a queimar África - digo eu.
Sei que na terra queimada, que é já parte de África, me vão classificar com palavras cheias de "ismos".
Que importa! Nenhum dos que me classifica pode respirar o ar de liberdade e confraternização de que eu continuo a desfrutar, em chão sem alcatifa. Continuo a não usar gravata e a não gostar de corredores, pelo que continuo a poder dizer aos dirigentes de África que melhor fariam se apelassem aos africanos que por aqui andam a derramar lágrimas e competência.
Eles valem bem mais do que os batalhões de estrangeiros que vão para África derramar racismo, paternalismo e arrogância.

2005/10/03


Olhem para ele: todo janota, a debitar texto sobre a guerra de Angola. Posted by Picasa

Promessa cumprida: Esta � a reprodu��o poss�vel da cr�nica da Jill em Mar�o de 88, a prop�sito de uma reportagem de guerra em Angola. Posted by Picasa

2005/10/02

Cuito-Cuanavale

Vivia-se uma fase de impasse na guerra. De um lado, as forças cubanas, do outro, as sul-africanas. A imprensa internacional falava das tropas do MPLA e da UNITA e da cidade do Kuito-Kuanavale.
As cores das tropas, enfim, mas a cidade...meu Deus. Santa ignorância! Havia, de facto, meia dúzia de casas ao longo de uma rua. Em tempos eram lojas de comerciantes que faziam o seu negócio permutando vinho, cobertores, bicicletas, aspirinas, injecções de penincelina, e tudo o que se pode imaginar, pelos cereais (sobretudo milho) que se cultivava naquela zona. E Havia também uma Escola. Mas estava tudo em ruínas, com os adobes à mostra, a maior parte sem telhados.
Ali é o ponto de encontro de dois rios , o Kuito e o Kanavale e os militares do MPLA tinham traçado ali uma linha, que, uma vez rompida, permitiria à UNITA infiltrar mais tropas no Bié e daí destabilizar completamente todo o Planalto central, afectando ainda mais o Caminho Ferro de Benguela.
A eventual criação de condições para instalar as tropas da UNITA no Bié, donde eram naturais grande parte dos seus dirigentes, permitir-lhes-ia, perante a comunidade internacional, romper com o anátema de terem a sua base principal fora do território angolano, na faixa de Caprivi, sob a protecção sul-africana.
Em Março (de 8 a 19) de 1988, eu e a fotógrafa do "África", a Ana Consolado, partimos para Luanda, integrados num grupo de jornalistaas que ia visitar a frente de batalha. A viagem de Luanda para o Kuito foi feita num avião Antonov, com uma tripulação angolana, muito jovem. Recordo o nome do seu comandante, o Praia. Essa mesma tripulação, fazendo a mesma viagem, seguindo a mesma rota, na semana seguinte, foi abatida.
Durante aqueles dias de Março viajámos nos mais diversos transportes, desde o Antonov a um blindado atolhado de granadas de RPG7, com fios descarnados à vista e uma temperatura interior incrível. Também utilizámos um helicóptero MI17, com um tambor de combustível suplente.
Fizémos a espiral da morte por várias vezes num "Casa", um avião que os angolanos tinham comprado a Espanha e que era um produto da cooperação espanhola com a Indonésia.
Não faltaram emoções. Quando estávamos na zona de confluência dos dois rios, com uma ponte parcialmente destruída, os sul-africanos bombardearam a zona com os célebres canhões G-5.
As reacções a este incidente foram espantosas. O correspondente da Agência Nova China ficou, primeiro meio paralisado, depois vomitou-se todo, de amarelo ficou verde, o Patrick Reina, da AP, deixou cair todo o equipamento ao rio, o Luís Vasconcelos (fotógrafo) ficou para trás à espera de apanhar qualquer coisa de diferente. A Ana Consolado empurrava toda a gente para dentro do blindado. O major que nos acompanhava gritava : "arranca com essa merda!" e a Ana opôs-se! Ainda faltava o Luís.
Eu tinha uma das máquinas fotográficas da Ana nas mãos e consegui disparar a última película que o filme ainda tinha. Agarrei o cogumelo de terra e água que se formou depois do impacto da primeira granada. Não serviu para nada - não dava imagem para o jornal. Está no arquivo apenas como recordação.
Nesta viagem houve vários incidentes. Quando chegámos ao Kuito misturaram-nos com um grupo de jornalistas dos chamados países "socialistas". Objectivos diferentes, visões opostas, conflitos óbvios. Exigimos não viajar com eles. Foi atendida a nossa exigência.
Noutra ocasião puseram-nos uns prisioneiros da UNITA à frente para lhes fazermos perguntas. O pessoal ficou incomodado e lá conseguimos explicar que "até podíamos ler um relatório da polícia, mas não faziamos perguntas a homens que não eram livres..." silêncio pesado na sala, mas a posição, assumida por todo o grupo, foi compreendida.
Na noite que passámos no Kuito, numa antiga pensão dos tempos coloniais, transformada quase em casa de horrores - os cubanos é que mandavam e, por conseguinte, faziam os possíveis por nos transformar a vida no chamado "inferno"- havia de tudo: pulgas, percevejos, um cheiro pestilento. E não havia água. A Ana e a Jill Jolliffe, que também fazia parte do grupo, protestaram o mais que puderam.
Pela minha parte assumi que estava em guerra. Podia, por isso, acontecer ainda bem pior.
De repente, olho para o lado, porque me chega um odor forte a Chanel 5. A boa da Jill tinha apanhado um cobertor mais ou menos limpo e, para se proteger da bicharada, enrolou-se nele. Para se proteger do cheiro despejou quase inteiro um frasco do dito perfume. Enfim... a noite acabou (começou) em gargalhada.
No final desta viagem, de que, evidentemente, tenho outros episódios para contar, a Jill e o António Gonçalves - agora meu companheiro no "Africandar"- escreveram duas belas crónicas a resumir as suas emoções durante a viagem.
Já as scanarizei e tudo, mas falta-me o resto da ciência e habilidade para as reproduzir aqui. Vou tentar aprender. Prometo republicá - las um dia destes.

2005/09/26

Sobrevivência/Morte

Não deixa de ser curioso que tenha dado ao escrito anterior o título de "sobrevivência". Podia tê-lo alterado, mas prefiro que ele fique a asinalar a minha intenção de relatar o esforço inaudito, sobrehumano que eu fiz para que aquele jornal sobrevivesse.

Havia dias que me fechava no gabinete de que me servia para, deitando-mo no chão e colocando os pés em cima da secretária, sentisse algum alívio da dor que sentia no peito. Da qual não falava a ninguém.

Tinha uma equipa maravilhosa, que confiava em mim e desempenhava o seu papel a contento. Ninguém protestava porque tinha salários em atraso, porque era necessário fazer um forcing até às tantas para fechar o jornal.

A maior parte das pessoas que comigo trabalhou naquele projecto entendia-o como uma espécie de "missão".

A jovem administradora, quando ficava com as contas a zero, não se cansava de me perguntar : "e agora, vamos fazer o quê?"

"Tem calma", era a resposta, mesmo quando sabia que as soluções estavam longe.

Toda a gente sabia quando eu viajava. E...se viajava, havia alguma coisa em vista. O povo ficava à espera e...sempre sabia da minha chegada, porque, na escada de acesso ao primeiro andar do nº.105 da Possidónio da Silva, ficava o cheiro da minha água de colónia - a mesma que ainda hoje uso.

Normalmente, as notícias eram boas. Para eles, bastava um olhar para a minha cara.

Cheguei a ir e voltar, no mesmo dia, à Cidade da Praia. Naquele tempo não era fácil!

Até que um dia percebi que não valia a pena continuar a lutar pela sobrevivência de um projecto que toda a gente queria morto - mesmo aqueles a quem mais interessava. Por isso, o matei. Com as minhas próprias mãos!

2005/09/25

A Sobrevivência

Pelo que atrás fica narrado está claro o cenário: o jornal "África" funcionava numa aflição só. A mim cabia-me a responsabilidade de o dirigir, pagá-lo e - já agora - lê-lo.
As receitas eram provenientes da publicidade, mas as agências não arriscavam no " África". Houve até um caso com uma das grandes agências da altura e que geria a conta de publicidade de uma empresa que nos apoiava com alguma consistência. Pura e simplesmente, a agência não nos pagava.
Mandei para contencioso, tribunal, essas coisas. O pessoal chamou-me louco, mas eles pagaram para não perderem a confiança do mercado. É verdade que nunca mais nos mandaram um anúncio. Nesse domínio, a conspiração também era aberta.
Para além da publicidade que íamos conseguindo com o estratagema dos cadernos especiais sobre isto, sobre aquilo - uma maneira de nos enquadrarmos na onda medíocre dos gestores nacionais, havia um acordo com Cabo Verde, já descrito e um outro, muito periclitante, que funcionava umas vezes e outras não, com Angola.
Um parêntesis para voltar a dizer a Carlos Veiga e aos seus brilhantes conselheiros que os apoios cabo-verdianos não passaram de uma gota de água.
Os verdadeiros apoios vinham de Angola, mas sempre de modo a que não nos deixavam respirar. Eram sempre para pagar o passivo. Em sete anos de actividade, o "África" nunca teve a mínima possibilidade de investir, de planear o que quer que fosse.
Uma pequena estória a este propósito: a certa altura eu precisava de falar urgentemente com uma das pessoas que geria este apoio e mandei-lhe uma mensagem por uma amigia que foi a Luanda. Resposta: "não me importo de falar com o teu amigo, se dormires comigo..."
Consegui, por causa desta canalhice sem nome, mudar o interlocutor, mas as respostas eram sempre pouco claras, ou não existiam.
Finalmente, em 1991 depois de longas conversas com alguns responsáveis angolanos, foi-me "imposta" a ideia de transformar o "África" numa revista especialmente dirigida à comunidade angolana em Portugal.
Resisti à ideia, mas percebi a intenção. Desse modo anulavam o carácter marcadamente independente do Jornal e sujeitavam-nos a uma dependência clara.
Todavia, em desespero de causa( havia as pessoas...) acabei por aceitar a ideia, mas, mesmo assim, os tais apoios seguros nunca chegaram. Até que, em Maio daquele ano, telefonei para Luanda, dizendo: ou se concretizavam os projectos, ou eu fechava o jornal.
Do lado de lá voltaram as promessas, mas no dia 31 de Maio o jornal fechou mesmo.
Antes disso liquidei todas as dívidas existentes. Apenas fiquei a dever alguns impostos ao Estado, na esperança de que o trespasse das instalações permitisse liquidá-los.
Mais uma vez fui apelidado de louco. Ninguém fazia isso. As empresas, quando fechavam pagavam ao Estado e ficavam a dever aos fornecedores.
Ainda me lembro do diálogo com o dr. Rudolfo Crespo, então gestor da Imprinter, a Gráfica onde o "África " era impresso.
"Oh! Leston, você está a dizer-me que vem fazer contas para fechar o jornal?... Nunca na minha vida tal aconteceu...Sempre que alguém fecha um jornal, esquece-se de nos pagar..."
O resultado foi que, de repente, corri o risco de ficar sem casa e aquelas coisas todas que fazem parte da nossa vida e que sempre custam a ganhar a quem tem de trabalhar.
Instalou-se a crise do Cavaco e as instalações, cujo trespasse valia na altura 10 mil contos, acabaram por ser passadas a troco do pagamento das dívidas ao Estado e à Segurança Social.
E agora que a estória dos financiamentos está contada e já se sabem as razões por que fechou o África, vou abri espaço para falar das coisas que fizémos, das pessoas que por lá passaram. Vão ver que há razões de sobra para ter saudades daquele projecto.

2005/09/18

As Tentativas Espanholas

Já aqui referi que tentei apoios espanhóis para o "África", a propósito do incidente com o Eugénio Inocêncio, o fato os sapatos e o resto.

A certa altura foi visível que Espanha tentava substituir, nomeadamente em Angola, Portugal. Afinal também não era difícil. Felipe Gonzalez procurava, com inteligência, parceiros que lhe abrissem possibilidades em África. Durante a visita de Pedro Pires a Madrid, em Fevereiro de 85, essa intenção ficou clara.

Em Portugal tentava-se, por todas as formas, eliminar o "África", começando pelas distribuidoras, passando pelos postos de venda que o escondiam por forma a não ser visto. As autoridades com alguma obrigação de apoiar o projecto, assobiavam para o lado. O jornal era bom porque inspirava uma corrente de informação a que bastava acrescentar ou tirar pequenos pormenores. Havia mesmo gente que plagiava textos nossos, virgula por vírgula, só o nome do autor mudava...

Os apoios africanos dependiam muito das próprias concepções de informação. Apoio para eles significava a possibilidade de manipular e eu não abria mão. Lembro-me, inclusivé, de alguns episódios curiosos: gente notável da redacção que vinha quase solicitar-me uma intervenção nos textos, receosos de que alguma coisa pudesse prejudicar a via negocial. A todos respondi sempre da mesma forma: ao convidá-los tinham a minha confiança, tudo quanto escrevessem era da responsabilidade deles.

Todavia, o jornal tinha de se pagar; o grupo de profissionais que dependia exclusivamente das receitas era importante e eu tratava de me mexer.

Falou-se na possibilidade de um grupo de empresários madrilenos estar interessado na possibilidade de nos apoiar e aí fui eu. Jantar com uma personalidade amiga de Felipe Gonzalez, hotel marcado numa das transversais da Gran Via. Oito horas da noite telefonei. "Jantar? Ainda é cedo. Eu depois passo aí" - disse a figura.

Onze horas da noite, apareceu o homem, um senhor. Conduziu-me até um restaurante fora do centro, com uma vista esplendorosa sobre a cidade e, enquanto esperávamos pelo jantar foi bebendo Gin tónico: mais de metade do copo com gin e um pouquito de água tónica.

Jantámos. Falámos e ele demonstrou o mais profundo espanto pela atitude das autoridades portuguesas, recusando o apoio a um jornal que obviamente era um instrumento poderoso.

Tinha, claramente, pensado na possibilidade de mobilizar apoios para o "África", mas chegou à conclusão que tal não fazia sentido. Deu-me o exemplo do que eles, espanhóis, faziam com a América Latina.

No final do jantar, para aí umas três da manhã, o meu anfitrião conduziu-me a alta velocidade até ao meu hotel. Na despedida ficou o lamento por uma recusa que era uma atitude de inteligência - dizia ele. Um apoio espanhol a um jornal português dedicado a África, naquela altura, abria a possibilidade de diversos conflitos.

Voltei a Lisboa no dia seguinte sem sequer o esboço de uma boa notícia para a minha gente. Todos o perceberam sem a necessidade de grandes conversas.

2005/09/14

"Um Homem de Mãos Limpas"

Como se deve imaginar, a Redacção do jornal "África", pela influência que ele desenvolvia, sobretudo nos territórios africanos que falavam português, sofria inúmeras pressões. Todavia, a equipa era coesa e a linha editorial era bem entendida. Não podíamos, em nenhuma circunstância, confundir-nos com um jornal local, nacional. Nós tínhamos uma visão global e mesmo quando criticávamos aspectos das realidades nacionais - o que acontecia muitas vezes - não o fazíamos com a intenção de interferir no dia-a-dia.
As negociações para o apoio ao "África" desenvolviam-se a vários níveis, com vários interlocutores, algumas das quais já não precisavam da minha presença. A minha condição era a da não interferência.
Numa das minhas prolongadas e didíceis viagens a Luanda - é um pouco difícil precisar as datas - recebi um telefonema de Cabo Verde. Um amigo, que fazia parte do grupo de pressão para viabilizar o projecto "África" perguntava-me se já tinha lido o último número do jornal de que eu era director. Que não! O jornal chegava a Luanda sempre uns dias mais tarde e, portanto, não sabia o conteúdo. Era pena - dizia-me a voz amiga, porque com um texto cujo título era, mais ou menos "Angola precisa de um Homem de Mãos Limpas"... não valia a pena continuar a conversar com ninguém.
O texto eliminava Eduardo dos Santos da cena política, sugeria o mesmo em relação a Savimbi e promovia Manuel Lima.
Fiquei estarrecido quando li.
Por todas as razões: porque Manuel Lima era um desconhecido, embora tivesse desenvolvido uma intensa campanha de promoção em Lisboa, apelando ao seu papel de "comandante do exército de libertação de Angola", uma ficção da sua cabeça e porque o nosso interlocutor era Eduardo dos Santos. O Jornal "África" era claramente anti - savimbista.
O texto tinha sido cozinhado por José Eduardo Agualusa, um jovem com talento para a escrita, mas com mais talento ainda para a intriga e para a mentira. Adepto da Unita, amigo do chamado médico de Savimbi, Fernando Morgado, abusou da confiança de João Van Dunem, que se distraiu enquanto eu estava em Luanda. Quando voltei a Lisboa tive que reorganizar a Redacção, mas as negociações, quase concluídas , para um apoio ao "África", com a dignidade que eu sempre exigira estavam comprometidas.

2005/09/03

Estratégias

Ao referir especificamente o nº 14 do "África Jornal" faço-o com vários objectivos, o mais importante dos quais não é o de dizer, como o outro, "paizinho já sou ministro". A direcção do jornal era para mim, do ponto de vista formal, o menos importante. O que me interessava era tê-lo ao serviço de uma estratégia inteligente.
Eu tinha a estratégia e precisava de apoios para ela. Em Portugal era (é) o que se sab(e)ia: ninguém vai além do seu quintal: um jornal sem tutela é um risco : "quem é este gajo, com ideias globais de informação, a querer fazer de um jornal o elo de ligação entre o Norte e o Sul, anti-soviético e anti-americano, a favor das independências mas contra quem as governa, defendendo Cabo Verde como o único território cuja independência deu vantagens ao seu povo...?"
Só pode ser agente da CIA - diziam alguns. Do KGB - diziam outros. A este propósito, o Fernando Alves, que assinava uma crónica fabulosa com o título genérico Bo(u)é de Sede (é que ele escrevia com o, mas, de facto é com u) chegou a escrever mais ou menos: "que raio ...mandem lá o cheque...)
E a estratégia era simples. Não contava com Portugal, não apenas porque, do ponto de vista político, não dava confiança, mas também porque os políticos e empresários portugueses entendiam que a defesa dos seus chamados interesses em África passavam pela crítica sistemática ao que lá se passava e pelo apoio a tudo quanto fosse oposição. O neo-colonialismo era uma tentação. O estabelecimento de relações de igualdade eram ( e ainda são) uma miragem.
Em Cabo Verde encontrei a inteligência necessária à compreensão do meu projecto. O meu interlocutor foi sempre Renato Cardoso. A primeira vez que falei com Pedro Pires foi quando me fui despedir dele, no final do meu contrato como correspondente da ANOP. A segunda, foi em Madrid, em Fevereiro de 1985.
Aí falámos do projecto "África Jornal" e da urgência em arranjar apoios para o transformar rapidamente num quinzenário. Nessa altura, manifestou dúvidas quanto ao objectivo do semanário, dúvidas que sempre manteve.
Era ( e é) um espírito avisado, cauteloso e, embora não tendo experiência de gestão de jornais, avaliava bem as dificuldades de um jornal com aquelas características com uma periodicidade semanal.
No essencial, a nossa conversa de Madrid ractificou o interesse de Cabo Verde no apoio a um jornal com as características do "África Jornal", virado para a defesa dos interesses africanos, numa tentativa de colocar o Continente na rota da comunicação internacional. Com um especial interesse: o apoio à luta pela Independência da Namíbia e ao fim da guerra em Angola.
Nessa base, como o governo de Luanda era bombardeado todos os dias por uma comunicação social simpatizante da UNITA e de Savimbi, pró-americana e anti-MPLA, o nosso jornal defenderia, não a política interna do MPLA, mas a estratégia de conversações multilaterais para o fim da guerra, a independência da Namíbia e tudo o que lhe estava associado.
Nessa sequência, fomos o primeiro jornal a defender a retirada das tropas cubanas de Angola, como contrapartida à Independência da Namíbia. Esta era também uma ideia cabo-verdiana, que tinha sido defendida por Pedro Pires junto de Fidel de Castro, durante uma semana que o Primeiro Ministro caboverdiano passou em Havana, com uma equipa de que fazia parte Renato Cardoso.
Castro apreciou particularmente as ideias de Pires e eu acredito que aceitou a ideia da retirada depois de ter ouvido a posição cabo-verdiana.
O apoio cabo-verdiano passaria pela publicidade de empresas públicas e pelo financiamento directo possível, sempre com a ideia de mobilizar apoios angolanos que compensariam os avanços da Praia. Na prática, o apoio governamental cabo-verdiano seria reposto, assim que Luanda percebesse o interesse de nos apoiar.
Ao longo dos tempos, também Aristides Pereira desenvolveu contactos com este objectivo. Todavia, algumas coisas não correram bem, porque eu não quis, nunca, sacrificar a ideia base daquele jornal: éramos independentes, não havia censura e toda a gente que escrevia conhecia os objectivos e a linha editorial do "África Jornal". Não foi bem assim...

2005/09/02

O 14º Número do "África Jornal"

O nº13 do "África Jornal" tinha uma reportagem de um visita de estado de Pedro Pires, então primeiro-ministro de Cabo Verde, a Espanha. Acompanhámos a par e passo a viagem. A intenção correspondia a uma nova estratégia: queríamos que os dirigentes africanos dos Cinco sentissem que também podiam ter um acompanhamento por parte da comunicação social.
Lembro-me bem que Felipe Gonzalez fez uma conferência de imprensa conjunta com Pedro Pires e se surpreendeu com o tipo de perguntas que lhe foram feitas pela nossa equipa (eu e o João Van Dunem). Mas percebeu e reagiu com simpatia.
No regresso de Espanha tinha o Xavier decidido a abandonar o projecto.
O nº14, de 3 de Março de 1985, já tem no cabeçalho o meu nome como director e o de João Van Dunem, como chefe de redacção.
Vale a pena contar alguns dos factos que medeiam o meu regresso de Cabo Verde em Setembro de 1984, no final do meu contrato como correspondente na Cidade da Praia, onde fui substituído pelo Rui Parracho, que, mais tarde, se confessou surpreendido com a minha recepção.
Na ANOP, então dirigida pelo Jaime Antunes, havia a ideia de que eu era "um fulano irrascível", muito ligado, por razões sentimentais, aos africanos. Afinal, não era nada "intratável"e o Rui foi tratado como VIP e nasceu, de resto, entre nós, uma forte amizade.
Quando cheguei a Lisboa estava convencido de que a minha experiência em África e a rede de contactos que, entretanto, tinha criado, poderiam ser úteis à agência. Fazia todo sentido integrar a secção de África e, sobretudo, não ficar amarrado a uma secretária, a traduzir os telexe's das agências internacionais.
Recomecei a trabalhar em Outubro e desesperava-me a tentativa de me esquecerem. O director, Jaime Antunes, que tinha montado na ANOP uma secção de jornalismo económico, a primeira, que depois transferiu para o seu "Semanário Económico" em peso, nunca quis falar comigo.
Um dia encontrámo-nos num corredor e eu disse-lhe que era urgente falarmos. Encostou um pé à parede, em atitude paciente: "Diz!..."
Virei-lhe as costas e, nessa mesma tarde, aceitei a porcaria de uma indemnização que a ANOP estava dar a quem quisesse sair.
Todos os meus colegas ficaram admirados - em Portugal ninguém se demite.
No dia seguinte estava em Carnachide para dar alguma força ao "África Jornal". Na prática, estava desempregado, porque o jornal não podia pagar-me salário. Desempregado mas cheio de força para o "meu projecto".E curiosidade acerca da ANOP. Jaime Antunes era o submarino, foi ele que acabou com a agência, juntando-a à NP.
A posição dele percebi-a na altura. Houve outras, todavia, que só mais tarde entendi, como por exemplo as dos membros das direcções técnica, financeira e comercial.

2005/08/30

As Mudanças

Os dois primeiros números do "África Jornal" tinham na ficha técnica Xavier de Figueiredo como director. A partir do terceiro número passou a aparecer igualmente o meu nome - como director-adjunto. Por várias razões, a mais ponderosa das quais era o facto de, estando em Cabo Verde e em contacto muito estreito com as diversas realidades africanas, não fazia sentido que o meu envolvimento não correspondesse à atribuição de responsabilidades públicas.

Esta dupla manteve-se até ao décimo terceiro número, altura em que o Xavier, por razões dele, decidiu abandonar o projecto.

Durante o primeiro ano passaram pelas páginas do jornal gente de todos os quadrantes. Entre os jornalistas mais assíduos contam-se os de Mário Crespo, Jaime Antunes, Solano de Almeida, Fernando Magalhães, Fernando Alves, João Van Dunem. Entre as colaborações destacam-se as de Gomes Vital (Renato Cardoso), Vitor Sá Machado, Miguel Anacoreta Correia, entre outras.

A partir do 14º número assumi a direcção e nomeei como chefe de redacção o João Van Dunem. Para as pessoas que me conheciam eram só surpresas: primeiro, estranharam que eu me tivesse aliado ao Xavier, já, que ideologicamente, tínhamos poucas ou nenhumas afinididades, além de que ele mantinha ligações com gente da UNITA, nomeadamente com Savimbi.

Com o João, que eu conhecia mal, a questão era outra: irmão de José Van Dunem, o João, tendo o MPLA como referência, estava do outro lado, já que eu sempre me afirmei como anti-nitista.

Todavia, nada disso impediu que coinstruíssemos uma forte relação de amizade e, durante alguns anos - até ele ir para a BBC em Londres - tivessemos aguentado um projecto que todos os dias parecia que ia desabar

2005/08/25

(Re)Começo

Feita a pausa das férias e do entusiasmo próprio do início de um novo projecto com velhos companheiros - o "Africandar.blogspot.com", voltemos então à história do "África" que eu prometi.
Tal como já disse, o Xavier de Figueiredo resolveu arrancar com o projecto - um projectinho, à sua maneira - que me desculpe o Xavier ( ele sabe que eu não digo isto por mal).
Pior ainda, na hora sentiu que precisava da minha ajuda e telefonou-me para Cabo Verde. Estávamos no príncipio de 1984. Precisei de algum tempo para reflectir, mas decidi ajudar, mesmo lá longe. Afinal era o meu projecto, sendo também dele, claro.
O primeiro número do "África Jornal" tem algumas coisas interessantes. Por exemplo, um texto do Renato Cardoso, assinado com um pseudónimo que ele utilizava de vez em quando (Gomes Vital), e onde era explicada de forma clara a estratégia de política externa dos chamados Cinco Países de Língua Oficial Portuguesa, a propósito de uma proposta da diplomacia portuguesa feita por Jaime Gama: o chamado diálogo tri-continental.
Nesse primeiro número do "África Jornal" assinei um texto de opinião sobre os direitos humanos em Cabo Verde, cujo primeiro parágrafo cito:" Cabo Verde inverteu os argumentos tradicionais em relação às liberdades públicas em África. Enquanto a maioria dos teóricos e alguns dos políticos que falam sobre África tentam provar que as liberdades públicas nos países africanos são um risco para a unidade nacional, um luxo dos países ricos, o poder cabo-verdiano desenvolve a tese de que o exercício de uma certa legalidade, a existência de garantias para os cidadãos são fundamento da unidade nacional, garantia de um processo de desenvolvimento".
O jornal tem a data de O1.02.84
Todavia, no conjunto, o jornal estava desiquilibrado.
Começou por ser mensal, sem dia certo de saída, o que me irritava. Um jornal não pode ser um calhário. Deve assumir um compromisso com os seus leitores e cumpri-lo.
Grave: não tinha apoios financeiros, não tinha distribuição garantida e apareceu como o parente pobre a pedir um lugarzito nas bancas, cheias de jornais gordos que empurravam todos os outros para o lado.
De qualquer forma, o Xavier foi publicando o "África Jornal", cujas primeiras instalações foram numa sala de um prédio em Carnaxide, perto do Hospital de Santa Cruz. Uma sala virada a Norte e com uma parede de terra frente às janelas, por onde, obviamente, não entrava o Sol.
Nas minhas férias desse ano conversámos e acertámos que eu continuaria na ANOP, mesmo depois de voltar de Cabo Verde. Também ficou claro que eu não apreciava particularmente um sócio que ele tinha incluído no projecto. Por causa das suas ligações instituicionais de caracter partidário.
Eu tinha posições políticas claras, determinadas por opções de carácter ideológio e filosófico, mas era independente. Toda a gente ligada ao meio sabia que eu tinha sido dirigente do MPLA, que tinha rompido com a clique entretanto chegada ao poder em Angola, mas também se sabia que eu era anti-Savimbista, o que, na prática, se confundia com o ser anti-Unita , porque a Unita sem Savimbi não existia.
Também era claro para mim que a guerra em Angola não tinha apenas um culpado, mas ela era, para Savimbi, a estratégia de tomada do poder. Não tinha outra.

2005/08/22

"AFRICANDAR"

Os irmãos mais novos são assim: crescem e chegam ao despautério de nos desafiar. E o mais grave é que, às vezes, nem reparamos nos desafios. Assim aconteceu neste 1º de Agosto. O Fernando Alves, meu companheiro , meu avil desde há anos, meu camarada de armas em ponderosas batalhas de letras - letras homéricas - desafiou-me a um blogue. Que "as minhas conversas lhe fazem "b(o)ué de sede". E só hoje reparei no desafio dele. A minha resposta parece tardia, mas, de facto, ela é muito pronta, a seguir ao momento da leitura
O Luís Sequeira , que não conheço, mas cujo blogue (O Abnegado) frequento com o maior prazer, dispôe-se a esperar pelo nosso blog, blog, blog... "AFRICANDAR"Sempre foste bom para os títulos, Fernando (sabes que consigo sempre descobrir a tua crónica no DN naquela emaranhado de critérios da página da Net pelo título?)
Pois então, está resolvido. Africandemos e convoquemos os restantes membros da Tribo a africandar connosco. Esperamos que eles se apresentem. Enquanto isso, vou abrindo o blogue
Teremos, de certeza, uma leitora simpática, Lyra - que no mesmo 1º de Agosto escreveu no Romeiro esta simpatia: "gosto de ler estas memórias". Pois, eu também gosto de ler a "Barca de Lyra".
PS - Já está "no ar": africandar.blogspot.com
Espero que esta seja mais uma viagem inesquecível. O primeiro post fala do meu fascínio pelos combóios do CFB. Quem quer subir?

2005/08/18

ANOP versus NP

A ideia que de longe eu tinha sobre a eventualidade da existência de dois grupos, na ANOP, um a favor da extinção e outro contra, acabou por se revelar falsa. Na verdade, a partir do momento em que a NP foi lançada, o grupo dos que estavam do lado do projecto ANOP foi reduzindo e assitiu-se a cenas verdadeiramente degradantes.
A certa altura fiquei com a sensação de estar sózinho. Pelo menos no sentido em que lutava, em que me manifestava. E mesmo sózinho, tinha uma estratégia.
Um dos objectivos claros da NP era tentar abrir delegações em África, para, dessa maneira, eliminar um dos principais trunfos da ANOP. Afinal, era a partir de África que Portugal acrescentava alguma coisa à corrente informativa internacional.
O Governo estava claramente do lado da NP e tentou mesmo transferir a aparente "guerra" entre ANOP e NP para os Palop's, começando por Cabo Verde, considerado o regime mais moderado e também aquele donde, afinal, saíam notícias verdadeiramente novas.
Numa operação política pouco apreciada na Cidade da Praia, José Alfaia forçou uma visita a Cabo Verde, onde ia explicar a criação de uma outra agência. Num jantar protocolar, com os habituais discursos, Corsino Fortes, o secretário de estado cabo-verdiano da comunicação social pôs, com elegância (Corsino é um cultor da língua portuguesa), os pontos nos ii's. De tal forma que Alfaia, em certas passagens, até perdeu o ar; ficou lívido e percebeu que dali não levava nada.
Contaram-me, porque eu recusei ir ao tal jantar.
A operação seguinte foi desencadeada por Luís Fontoura, secretário de estado da cooperação, que foi, igualmente, a Cabo Verde para as habituais reuniões das comissões bilaterais de cooperação. Fontoura levou consigo o director-adjunto da NP, Wilton da Fonseca, um brasileiro simpático, com grande experiência dos bastidores.
Wilton ficou mais de duas semanas em Cabo Verde, entrevistou quase toda a gente, inclusivé o Presidente da República, Aristides Pereira. O primeiro-ministro de então, Pedro Pires, proibiu o pessoal político do seu gabinete de falar com o director adjunto da NP.
Eu falei com Corsino Fortes, quando soube da marcação da entrevista a Aristides Pereira. Tentei explicar-lhe ,e consegui porque ele entendeu, que a NP estava a transferir a "guerra" com a ANOP para Cabo Verde. Lembro-me de, na altura, lhe ter recordado um ditado africano: "quando dois elefantes lutam, quem sai mal é o capim" e acrescentei: "a luta aqui é de coelhos, mas o capim também é pouco".
Wilton da Fonseca saíu de Cabo Verde a uma segunda-feira de manhã, dia 6 de Março e quando, ao fim da tarde, chegou a Lisboa, tinha em todos os telexes, com campaínhas, a notícia:"Aristides Pereira pensa abdicar do cargo".
Foram 15 dias de trabalho atirados para o lixo: a entrevista com o Presidente da República não respondia à principal pergunta do momento e todo o quadro de análise da situação cabo-verdiana tinha deixado de fazer sentido.
No dia seguinte era feriado em Cabo Verde, Dia Internacional da Mulher. Estava eu a jogar ténis, quando apareceu o motorista do secretário de estado cabo-verdiano da comunicação social. Que o sr. queria muito falar comigo. Respondi que iria só mudar de roupa. Que não, que fossse mesmo assim. E lá fui.
Quando entrei no gabinete dele, tinha na mão um telex da France Press, com a notícia da resignação de Aristides Pereira. E perguntou-me: "então, a guerra já começou...?" Eu, olhando o telex disse: "essa notícia não é da France Press, é minha e o sr. e mais meia dúzia, se não uma dúzia de pessoas sabe que o sr. presidente tem falado aos amigos da intenção de se retirar brevemente. Quanto à oportunidade da notícia, que hei-de fazer?Por uma vez na vida decidi a meu favor".
Os dias seguintes foram terríveis. Aristides Pereira estava em Nova Delhi com o ministro dos negócios estrangeiros. Alguém me contou depois que Silvino da Luz espumava a pedir a minha expulsão do país. Aristides Pereira, na viagem de regresso, quando lhe faziam a pergunta sorria com aquele seu sorriso simpático e nada dizia. Não desmentia, nem confirmava. Da ANOP não me largavam, queriam uma confirmação do próprio.
A Comissão Política do PAICV reuniu e houve alguns dos seus membros, os marxistas mais ortodoxos, que pediram a minha expulsão. Aristides Pereira acabou por admitir as conversas a respeito de uma eventual resignação e Pedro Pires, com quem eu nunca tinha falado, defendeu o meu direito à notícia. Assunto arrumado. Pelo menos por ora...
A questão das agências portuguesas foi, entretanto, discutida numa reunião dos ministros da comunicação social dos cinco países de língua oficial portuguesa. Todos foram unânimes em não dar apoio à NP e de lá chegaram-me informações sobre as verdadeiras razões das manobras portuguesas no domínio das notícias.
Devo confessar que, entretanto, desenvolvi algumas actividades de bastidores, chamando a atenção para aspectos menos inteligentes do processo. Um deles era óbvio: o nome da agência - Notícias de Portugal. Em África, onde a saída da informação era muito limitada, ninguém gostaria de ver a sua realidade retratada sob a tutela da antiga potência colonial. Balsemão, Alfaia, Barroso e Cª foram pouco inteligentes.
Para além do objectivo interno de tirar força à ANOP, no plano externo havia cruzamento de muitos interesses, já que os cinco eram, praticamente território vedado às grandes agências internacionais.
O envolvimento de José Alfaia em toda a manobra seria - disse-se nessa reunião - compensado com uma participação nos negócios do petróleo.
De posse dessas informações, colhidas de fontes insuspeitas e fidedignas ( a verdade é que Alfaia foi mesmo para a Partex, onde se envolveu no negócio dos petróleos) escrevi um texto em que descrevia o teor da fundamentação da extinção da ANOP, dizendo, inclusivé, que o Presidente da República, General Eanes, conhecia o dossier.
Enviei o texto para o então director do Expresso Augusto de Carvalho, que me prometeu publicá-lo na semana seguinte.
Nem na seguinte, nem na próxima, nem na outra a seguir e, quando eu tentava falar com ele aparecia sempre alguém a dizer que o sr. dr. não estava. Um dia, atendeu-me a Fernanda Barão, cuja voz, evidentemente, reconheci logo. "Queres chegar muito alto" -. disse-me ela .Fiquei sem saber o que é aquilo significava, mas também não ,interessava.
Nesse mesmo dia escrevi um telex ao Augusto de Carvalho, dizendo, resumidamemente: " tens em teu poder um texto que te enviei há várias semanas e que nunca foi publicado apesar das tuas promessas. A partir deste momento, o texto volta à minha posse e tu não o poderás utilizar de forma alguma".
Telefonei ao meu amigo Rui Pimenta, contei-lhe o que se passava e ele pediu-me o texto para entregar ao Mário Mesquita, então director do Diário de Notícias, que não me conhecia, mas a quem fiquei muito grato pela manifestação de confiança, ao publicar na íntegra o texto, que não teve - acrescente-se - qualquer desmentido. Nem Eanes se atreveu a dizer que não conhecia as verdadeiras razões da extinção da ANOP.
Abro aqui um pequeno parêntesis para dizer que nunca na minha vida profissional de jornalista tive um único desmentido.
Foi o fim da NP. A partir daquela altura, a estratégia foi a de juntar as duas agências numa única, a Lusa, que ainda hoje existe, mas que nunca teve um projecto capaz.
Para finalizar este episódio, apenas um pormenor: algum tempo mais tarde, quando me encontrei com JM Barroso, ele não resistiu a acusar-me de lhe ter destruído o projecto da NP. Hoje ele é director da Lusa e eu escrevo este relato retrospectivo, para me defender de algumas acusações que foram feitas com o objectivo de me eliminar profissionalmente e também para não perder o treino, já que os jornais, as televisões , as rádios e, ao que parece, as agências, deixaram de ser locais recomendados para jornalistas.

2005/08/14

ANOP - A Extinção Anunciada

Em 1983 o fantasma da extinção da ANOP voltou à carga com uma intensidade inusitada. Era primeiro-ministro Pinto Balsemão e secretário de estado da comunicação social, José Alfaia. A pressão sobre o pessoal da ANOP era enorme.
Xavier de Figueiredo, que, entretanto, seguindo-me as pisadas, havia sido expulso de Moçambique, onde era chefe da delegação da ANOP, num processo igualmente pouco claro mas que definia os métodos de um Samora Machel ainda demasiado radical, não resistiu e saiu com uma indemnização ridícula, para quem tinha dado tanto de si à instituição.
Começou, por isso, a pressionar-me com a urgência de se arrancar com o nosso jornal.
Aquele não era ainda o "meu tempo". Por um lado, queria acabar o contrato que me ligava à ANOP na Cidade da Praia, por outro, pressentia que, do ponto de vista político, não só para os africanos, mas também para os portugueses, o momento ainda não havia chegado.
Trocámos alguma correspondência: ideias para lá, ideias para cá, ficou, mais ou menos assente, que pensaríamos, com calma, no tal lançamento, lá mais para a frente. O meu contrato acabava no final do Verão de 1984.
Em Janeiro desse ano sou surpreendido com uma notícia publicada nos jornais portugueses sobre o "próximo" aparecimento de um jornal, dirigido por Xavier de Figueiredo e especialmente dedicado a África.
A ANOP fazia agora pressão sobre as delegações, não pagando salários e o resto das despesas. Chegou a dever-me mais de três mil contos, sobretudo porque a todas as propostas que fiz para instalar a delegação e o delegado, Valy Mamede respondia com o silêncio.
Quando lhe mandei um projecto, já pronto, para edificar as instalações da Agência, casa para o delegado e um pequeno auditório, onde poderiam ser dadas as conferências de imprensa- já que na Praia não havia nada que servisse tal objectivo, Valy Mamede respondeu que eu, além de "um perigoso comunista", porque o obrigara a assinar um contrato onde estavam previstas todas as eventualidades, era "maluco".
O projecto que, de resto, tinha sido ideia de João Galamba e era da autoria de um arquitecto cabo-verdiano, amigo dele, custava naquela altura 600 contos cabo-verdianos, o que queria dizer 1.200 portugueses. O Estado de Cabo Verde dava o terreno, situado, junto à embaixada de Portugal e ao espaço reservado, naquela altura, para o palácio da Assembleia Nacional, que ainda haveria de ser construído pelos chineses.
Como nenhnuma das minhas propostas foi aceite e a alternativa contratual a casa própria era o pagamento de Hotel, para mim e para a família, era isso que a ANOP pagava - e, muitas vezes, não pagava.
Como o processo de extinção da ANOP se revelasse complicado, Balsemão e Alfaia recorreram a outro estratagema: fundaram uma outra agência, para onde se transferiu a equipa de José Manuel Barroso, com Wilton da Fonseca e Companhia - a Notícias de Portugal, com o estatuto de cooperativa.
A ANOP ia ficando cada vez mais em perigo e, a certa altura, lá longe, tive a sensação de que haveria dois grupos: um que lutava contra o fim da e outro que já se tinha passado para o outro lado. O Conselho de Administração, na prática, funcionava como comissão liquidatária
Para mim, a ANOP podia ser um grande projecto de comunicação social português, desde que soubesse aproveitar o grande potencial que se abria em África, afinal o único espaço que estava em aberto à disputa de uma agência que não se integrasse na grande rede internacional dominada pelos americanos e ingleses. É que ao espaço africano poderia juntar-se um outro de língua portuguesa - o Brasil
E Portugal tinha condições especiais para aproveitar essa abertura, mas os nossos governantes nunca primaram pela inteligência, sobretudo na análise das condições externas. Vivem sempre da pequena intriga, dos pequenos interesses e uma ANOP forte, com um estatuto de empresa pública, não servia Pinto Balsemão.
Antes que o seu consulado - um dos mais imcompetentes da governação portuguesa - acabasse por cair seguindo "de vitória em vitória até à derrota final", como Marcelo Rebelo de Sousa escreveu na altura, foram criadas as condições objectivas para a extinção da ANOP.
Esta extinção era, de resto, defendida e quase exigida pelas grandes agências americanas, a UPI e a AP. Falaremos disso mais adiante.

2005/08/13

Cabo Verde - um Salto ao Brasil

A Cidade da Praia, naquela altura, era uma cidade bem cosmopolita. Era possível encontrar gente de todo o lado e gente que estava ali, normalmente por boas razões. Na realidade,o golpe de estado na Guiné Bissau, em 14 de Novembro de 1980, tendo acarretado o corte de relações entre os dois Estados e dado lugar à fundação, em Cabo Verde, de um outro partido - o PAICV - transferiu para os cabo-verdianos o prestígio do PAIGC, que depois do golpe nunca mais parou de se afundar.
Os cabo-verdianos, libertos da responsabilidade guineense, dedicaram-se completamente ao seu país. Não me canso de repetir que o golpe de Nino Vieira foi a verdadeira libertação de Cabo Verde.
Os grandes projectos de cooperação começaram a ser canalizados para o Arquipélago e o país começou a crescer e a desenvolver-se.
Com o desenvolvimento de processos de cooperação aparecia gente de todo o lado. Gente interessante, arejada. Era mais fácil saber o que se passava no Mundo na Praia do que em Lisboa.
Entre esta gente, um austríaco, casado com uma brasileira e, por isso falando português com sotaque de Belém do Pará, Godofredo Stockinger, transformou-se num visitante especial do meu escritório. Pelo menos lá sabia as notícias em cima da hora.
No Brasil, os militares cantavam o canto do cisne, as multidões movimentavam.se e no Parlamento Dante Oliveira fez uma proposta de emenda à constituição que ficou conhecida como "Directas Já".
Discutíamos todos os dias os acontecimentos do Brasil. A emenda ia a votação, mas o governo brasileiro impediu todo o noticiário sobre as discussões da proposta.
Havia mais dois brasileiros, um deles exilado político e funcionário da UNESCO. Aos três eu garanti que furava aquela proibição "governista", desde que tivesse contactos seguros no Brasil. Ficaram a olhar para mim, meio incrédulos. Apenas o Stockinger me deu o benefício da dúvida. Mas todos se dispuseram a dar-me os contactos.
Montado o esquema, avisei o director da ANOP, que eu não conhecia, das minhas intenções: iria produzir noticiário sobre o que se passava no Brasil, com duas condições: as notícias seriam datadas de Brasília e eu precisava ter a certeza de que nenhum órgão de comunicação social português saberia como estaríamos a trabalhar.
O Cordeiro não me conhecia e foi perguntar ao Luciano Rocha: " olha lá, está ali no telex o gajo de Cabo Verde a dizer que vai fazer notícias sobre o Brasil...o que é que tu achas, o gajo é maluco ou quê?" O Luciano, que me conhecia bem, disse que se eu dizia que fazia é porque fazia mesmo.
E assim foi: nesse processo entrevistei o próprio Dante Oliveira, que uma telefonista foi chamar à tribuna para falar comigo ao telefone. Entrevistei, também pelo telefone, Miguel Arraes e o velho Ulisses de Guimães, que, antes de me dar a entrevista me "chingou" porque o estava a acordar às sete da manhã.
Dei informações um pouco de todo o Brasil e bati em duas horas a EFE, com duas delegações no Brasil, uma no Rio e outra em Brasília, com a notícia das votações finais,largamente favoráveis ao sim.
Os jornais portugueses dos dias 27 e 28 de Abril de 1983 publicaram todo o meu material. Alguns deles fizeram as primeiras páginas com as minhas notícias e os meus textos de análise, mas a ANOP nunca foi capaz de reconhecer, nem o trabalho extraordinário do noticiário sobre a África Austral, nem este feito brasileiro. É que. no ar já andavam os arautos da desgraça, anunciando a extinção da Agência.
De qualquer forma, esta minha incursão pelo Brasil, contribuiu para um aperfeiçoamento na estratégia daquele que seria o meu jornal.

Cabo Verde e a Áfrrica Austral

Dentro do princípio de que jornalista sem rede é palhaço, também montei a minha em Cabo Verde. Um jornalista não tem que montar uma espécie de rede de espionagem ou de contra-informação. Basta conhecer as pessoas, falar com elas , entendê-las e , obviamente, estabelecer algumas cumplicidades, descobrir interesses comuns, acertar regras, definir e cumprir compromissos
Com a rede montada comecei a projectar nela a minha especulação: e se em Cabo Verde se estivesse a construir uma solução negociada para os problemas da África Austral? O exemplo da capacidade ( mais do que isso, da inteligência) para o diálogo vinha-me das informações que, entretanto, ia colhendo sobre o processo de negociação com Spínola, de que já tinha ouvido falar em Lisboa, mas que, em Cabo Verde, ganhava outro sentido.
Com o propósito de apurar melhor a fiabilidade da minha tese, fazia pequenas notícias relacionadas com o tema e recolhia as reacções nos sítios certos. Fui tendo a certeza. Percebi que seria no Sal onde eu deveria actuar. O que acontecesse passaria por lá. Não foi difícil montar um esquema - que nem hoje revelarei, mas posso garantir ao ex-ministro Silvino da Luz, que não suportava as minhas incursões na área, que o delegado da SouthAfrica Airlines, que ele incomodou, não fazia parte da minha rede.
Foi então que a ANOP começou a aparecer na corrente internacional noticiosa. Na primeira linha. As conversações entre Angola, República da África do Sul, Swapo e Estados Unidos, realizadas bastas vezes, agrupando pares diversos eram um "top secret" que faz parte do meu curriculum como jornalista.
A primeira notícia sobressaltou a comunidade diplomática da Praia. O embaixador de Portugal, Batista Martins, um homem interessado e interessante (tinha feito parte do gabinete especial de acompanhamento da situação em Timor Leste no governo Pintasilgo), chamou-me assaranpantado: como é que ele não sabia de nada? Tive que lhe explicar que a minha relação com ele era exactamente no sentido inverso - dele, eu queria notícias...
A insistência com que eu noticiava as reuniões preocupou muita gente. Os americanos, que queriam recusar a Cabo Verde um papel no processo, às tantas diziam que o ambiente era muito fluido, pelo que, pelo menos havia que mudar de local.
Os cubanos, que recusavam o diálogo, mandaram expressamente à Cidade da Praia, o vice-presidente Juan Almeida Bosque, para tentar demover Pedro Pires de continuar com o processo.
Silvino da Luz protestava e tentava descobrir-me as fontes.
Paulo Jorge, o ministro angolano das relações externas, e que era frontalmente contra a hipótese da retirada das tropas cubanas, viu-se obrigado a pedir a demissão, já que no dia em que uma das reuniões se realizava no Sal ele, numa conferência de imprensa, se não me engano, no Senegal, negava tais encontros, evidenciando que estava fora do processo.
Renato Cardoso, que nessa altura era conselheiro político de Pedro Pires, um dia, disse-me: " já identifiquei o teu processo, fazes como o John Le Carré na Rapariga do Tambor". Eu ainda não tinha lido o livro, sorri e fui comprá-lo. Concluí que sim - o meu processo era semelhante, já que projectava na realidade uma ficção e depois recolhia o resultado que já reflectia a verdade. Depois era só confirmar com uma fonte especial.
A verdade era tão evidente que Pedro Pires foi obrigado a reconhcer, num comício, no Sal, que "Cabo Verde sempre se dispusera a ceder o seu território para encontros que visassem a solução de conflitos". Foi a confirmação oficial.
Em todo este processo há pequenos pormenores que hoje, a esta distância, me fazem sorrir.Por exemplo, o embaixador soviético, que recusou receber-me quando lhe pedi uma audiência, mandou pelo embaixador Batista Martins "un coup de chapeau".
As minhas notícias levaram Angola a falar, pela primeira vez, em diálogo e a admitir que a retirada das tropas cubanas poderia estar na mesa das conversações. Kito Rodrigues, um dos membros mais importantes do processo de negociação, deu-me uma entrevista na Ilha do Sal.
Essa entrevista teve negociações complicadas e começou comigo a bater à porta de uma casa dos Espargos, na Ilha do Sal e com o então general N`Dalu França a perguntar-me: "o que fazes aqui?" "Eu é que quero saber o que fazes tu aqui..." - respondi. Havia ali muita gente que me conhecia.
Numa outra ocasião, em que membros da Swapo se encontraram com representantes da África do Sul em S. Vicente e já não na Ilha do Sal, os TACV cancelaram os voos da Praia para o Mindelo. Fiquei bloqueado, mas não deixei de fazer a notícia.
Quando estava a carregar no botão do telex para enviar o texto para Lisboa, dizia a minha mulher, que, naquela altura estva comigo no escritório: "dentro de cinco minutos o Mundo será diferente". Havia, de facto, naquele trabalho um gozo especial e que não era apenas definido pelo cumprimento de um papel profissional. Não. É que aquela matéria interessava-me particularmente. Eu tinha sido actor de uma parte daqule conflito.
Renato Cardoso, que me foi visitar naquele momento, ainda ouviu a frase e perguntou que fazia eu. Disse-lhe para ler. Leu e, sem dizer palavra saiu. Segundo as nossas regras, ele não podia nem desmentir, nem confirmar uma coisa daquelas.
Mas algum tempo depois, não resistiu a tentar saber como conseguia eu a informação e contou-me que uma das reuniões entre os beligerantes tinha sido estudada, planeada e concertada por apenas quatro pessoas. Uma delas era ele próprio, que não me tinha dito nada, a outra era o ministro Silvino da Luz, que, por razões óbvias e mais pelo ódiozito especial que me tinha, também não tinha sido. "A quarta, que não te digo quem foi, tenho a certeza não te disse..."
Teve uma gargalhada bem humorada como resposta.
O processo de negociações tinha começado em 1979 e continuou para lá de 1984, mas só houve noticiário a seu respeito entre 1981 e 1984, os anos que estive em Cabo Verde como correspondente da ANOP.
A France Press, por exemplo, que tinha Cabo Verde como seu território e cobria a partir de Dakar, nunca conseguiu uma única notícia de todo aquele processo.
Um dia, estava eu no Sal a noticiar mais um encontro entre americanos e angolanos, na casa especial da presidência da república cabo-verdiana (estou convencido de que foi constrída expressamente para aquele efeito) e aguardava junto ao telefone púlico do aeroporto, sentado num daqueles bancos incómodos que durante muitos anos serviam de poiso durante horas e horas a quem queria seguir para outra Ilha, quando se aproximou do tal telefone um sujeito todo bem vestido.
Pediu à telefonista, ali ao lado, uma ligação e, dentro de dois ou três minutos, estava a chamar-me nomes em francês. Mentiroso era o menos ofensivo. O homem estava furioso. De Lisboa, a Redacção da ANOP avisava-me que a France Press desmentia todas as minhas notícias. Era aquele mafarrico que, não sabendo de nada e não vendo nenhum aparato que lhe indicasse,sequer, a possibilidade de um encontro de tamanha importância me desmentia e aos puxões de orelhas que levava - suponho que de Paris - respondia com insultos dirigidos ao correspondente da ANOP, que, além do mais "devia ser maluco".
Claro que o homem não me conhecia e, naquela altura, tal como havia dito um administrador da ANOP eu não tinha ar de jornalista, pelo menos daquele tipo.

2005/08/09

Cabo Verde

Em Agosto de 1981 fui a Cabo Verde, à Cidade da Praia. A viagem era um pesadelo. O Aeroporto do Sal e a necessária espera para as ligações com as outras Ilhas fazia parte de uma descida aos infernos. A Cidade da Praia era uma pequena cidade, alcandorada no chamado plateau e o resto, à volta, começava a nascer. As dificuldades eram imensas. Havia um único hotel, de construção recente, o Praia Mar. Duas ou três pensões no plateau.
Falei com as pesssoas, ouvi o João, regressei a Lisboa e em Setembro levei malas. Iria instalar-me. A terra tinha-me impressionado muito favoravelmente, sobretudo pela vontade que descobri nas gentes, na virtude que o sistema parecia encerrar.
O Gabinete de trabalho da ANOP era uma pequena divisão no rés do chão da Rádio Nacional. Respirava-se mal. Ao lado ficava o gabinete do primeiro-ministro.
O Jão Galamba foi impecável: apresentou-me a toda a gente, transmitiu-me tudo o que é possível transmitir entre dois jornalistas. E, alguns dias depois lá foi. Ele e a Conceição, sua mulher.
Era embaixador de Portugal em Cabo Verde, Vaz Pinto, um homem de outros tempos, muito reaccionário, que aproveitava todos os pretextos para denegrir o regime, as pessoas, o país. Fiquei espantado com as primeiras conversas que mantive com ele. Fiquei ainda mais espantado por ter percebido que ele não entendia que ali, naquela cidade pequena, naquele país ainda considerado inviável, se estariam a passar coisas importantes.
Não. Para ele, o importante eram os pequenos escândalos locais. Por exemplo, um dia qualquer um homem de idade que mantinha um "afair" com uma jovem, surpreendeu-a com um namorado. Num gesto irreflectido, disparou sobre o jovem. Um incidente igual a tantos outros que acontecem (infelizmente) em todo o Mundo. Só que o homem era pai de Pedro Pires.
Tanto bastou para que o em baixador de Portugal evocasse, publicamente, um princípio da Igreja da Idade Média, segundo o qual os filhos dos carniceiros não podiam exercer cargos de responsabilidade, nomeadamente, não podiam ser padres.
A conversa chegou aos ouvidos do governo cabo-verdiano e, discretamente, foi pedida a substituição do senhor. Ficou a substituí-lo, durante tempo demais o secretário da embaixada, um homem que era objecto da mais pesada chacota. Nunca quis conversar comigo e eu também não estava interessado na conversa. Foram tempos maus para as relações entre Portugal e Cabo Verde.
Mas eu tinha descoberto o que se passava ali e, pouco tempo depois de ter chegado à Cidade da Praia, através de um dos seus mais altos funcionários, Renato Cardoso, com quem me encontrava regularmente, em termos formais, no seu gabinete do Ministério, fiz ao ministro Silvino da Luz a seguinte proposta: eu, enquanto correspondente da ANOP, apoiaria a política externa de Cabo Verde ( não havia divergências com Portugal) e, em contrapartida, obteria informação sobre a evolução da chamada "África Austral".
Soube mais tarde que foi o pânico. Que saberia este homem? Ao serviço de que polícia estaria? Porque, a verdade é que, perante tal proposta eu teria de saber que Cabo Verde, já desde 1979, estava a tentar, pela via do diálogo acabar, com a guerra em Angola, resolver o problema da Namíbia e, em consequência, terminar com a ocupação angolana por parte das tropas cubanas.
Ora, a verdade é que não sabia de nada, mas percebi que, naquele ambiente, com aquela gente, era possível descobrir, de forma imaginativa, caminhos para o que parecia impossível. Além disso, Cabo Verde precisava encontrar o seu papel no Mundo e eu conhecia bastante bem toda a situação da "África Austral" (coloco as aspas porque Angola só politicamente pode ser considerada como tal e isso, por conveniência das grandes potências de então), grande parte do território faz parte da África Central...enfim, diferenças que para a maior parte das pessoas não querem dizer nada. Umdia virá....