2005/11/27

Democracia

O tempo é pouco, mas, de vez em quando, lá folheio os volumes em que tenho o "África" encadernado para, por um lado,me surpreender com o que, com tão poucos meios fazíamos, e, por outro, para descobrir os caminhos do progresso de um Continente aparentemente condenado à miséria.
Os problemas de há vinte anos são os mesmos de hoje. Alguns deles ampliaram-se e poucos se resolveram.
Mas não é apenas em África. Em Portugal também. Está tudo na mesma e, por exemplo na Comunicação Social, está pior.
Atentem no que eu escrevia no dia seis de Outubro de 1988, na "DIRECTA":
Uma das condições indispensáveis à definição das chamadas democracias convencionais é o direito à liberdade de expressão.
Todos os estados que se definem naquele campo fazem questão em afirmar as garantias convenientes a esse direito fundamental.
Portugal assim tem funcionado nos últimos anos. As afirmações sucedem-se e não há quem, querendo demonstrar o contrário, consiga romper a barreira de tabus entretanto erguida.
Para os observadores estrangeiros e para a maioria do público português está demonstrado, não vale a apena sair a terreiro a afirmar dúvidas.
Contudo, o direito à livre expressão está tão limitado como todo o resto. O edifício legal que garante o seu exercício é cada vez mais favorável aos grandes grupos económicos, políticos, de pressão, numa palavra.
E isto, quando o Estado se afirma por aquilo a que se chama a não intervenção na sociedade.
Essa não intervenção tem significado transferência e abdicação.
Transferência de controlo para os grandes grupos económicos e abdicação das responsabilidades no que diz respeito aos direitos das minorias. Pelo menos no que diz respeito à liberdade de informação.
Liberdade de informação que passa muito pela liberdade de circulação das ideias.
Hoje, em Portugal, é quase impossível um jornal que não esteja tutelado por um grupo económico circular. Por este andar, a opinião portuguesa será cada vez mais a opinião dos grupos que se vão (re)organizando.
É evidente que eles têm o direito de tentar, mas o Estado tem a obrigação de proteger todos os outros.
Dezassete anos volvidos e o panorama é bem mais tenebroso. Em termos de comunicação social vivemos num país da América Latina, nos seus piores tempos.

2005/11/06

Bispos

Já lá vão quase dois meses que não acrescento nada a este blogue. A dificuldade está na falta de tempo que tenho para ir olhando as páginas que fomos escrevendo nos sete anos que durou a aventura. O que era importante reproduzir de memória, está feito. Agora, importa salientar a capacidade de intervenção revelada e o modo como utilizávamos um instrumento poderoso, com era o "África".
É natural que me detenha mais nos textos que eu próprio escrevi - aqueles que assinei, porque os outros já não os consigo identificar.
Durante a maior parte do tempo em que o "África" existiu assinei uma coluna com o título de "Directa". Era ali que eu afirmava de forma clara e sucinta o que pensava sobre certas questões.
Não resisto à reprodução de uma delas, publicada em 21 de Setembro de 1988:
«João Paulo II esteve na África Austral.
Na mesma altura em que o chefe da Igreja Católica viajava por terras de África, um bispo português, o arcebispo de Braga, D. Eurico Dias Nogueira, fazia, no Santuário da Penha, em Guimarães, declarações bizarras.
Servindo-se do púlpito, D. Eurico atirou aos fiéis: " a descolonização foi a página mais negra da História quase milenar de Portugal".
Desconheço se algum dos presentes reagiu.
Também não sei se num santuário as pessoas têm o direito democrático de responder a afirmações tão pesadas como esta.
E mais esta: Em Angola e Moçambique verifica-se a "ausência total de democracia, pela imposição do regime unipartidário, de inspiração marxista-leninista".
D. Eurico foi bispo na Beira (Moçambique) e no Lubango (Angola).
Desconheço se na Beira se portou como um democrata. No Lubango não. Foi um bispo autoritário, rodeado de luxos e amigo dos ricos. O partido único de então garantia-lhe toda a sorte de privilégios - contra os quais nunca ouvi a sua voz levantar-se, embora, na altura, tivesse toda a elegitimidade para o fazer, já que era cidadão de pleno direito, funcionário do estado novo.
A que propósito vem agora falar de Angola e Moçambique no Santuário da Penha?
Porque não fala da exploração da mão de obra infantil que se processa ali mesmo, debaixo dos seus pés?
Será que o papa, depois da sua viagem a África, não pode pôr a funcionar os mecanismos do partido único que governa a Igreja e determinar que fiquem calados os bispos que não se atrevem a falar das realidades pastorais que os rodeiam?