2005/07/19

Aqui estou

Um amigo - o Carrera - velho companheiro de militância até às últimas consequências, chamou-me no último domingo. "Que fazes tu?" - perguntou-me ele. Surpreso - não é hábito ser invectivado daquela forma - fiquei sem resposta. "...que não te dás conta do que se passa no Mundo?"- acrescentou.

Já não ouço notícias por hábito, cortei com os jornais e só vejo televisão de vez em quando. Pensei: aconteceu alguma coisa grave em Nova Yorque: mataram três americanos...com uma bomba de carnaval activada fora de tempo...

Continuou o meu amigo:"num debate da RDP África falaram do "África". O Patraquim disse que o projecto tinha sido o mais importante de toda a comunicação social portuguesa e que tinha acabado porque os partidos portugueses nunca souberam o que se passava em África e os africanos .... não sei mais o quê. Foi um projecto heróico, consideradas as circunstâncias, etc, etc.".

Mas, o Carrera (Carrera de Porsh) acrescentou: "também tinha lá uns madiés que falaram das ilegalidades do financiamento e que o Pedro Pires, embora impoluto, incorruptível e tudo o resto, tinha cometido algumas ilegadidades.

De repente, voltou-me tudo à cabeça. Interiormente, agradeci ao Patraquim, poeta moçambicano a quem o jornal "África" sempre abriu as portas.... da tipografia. Embora superficialmente , ele percebeu o esforço heróico, super-humano que foi necessário para fazer aquele jornal semanal.

Passei o fim de semana a magicar, a ruminar. Estou farto de ouvir falar do "meu projecto", cansado de ouvir e ler aleivosias sobre o meu esforço e de mais uma dúzia de homens bons, sem ser consultado, sem ser ouvido.

Estou farto.

E, como nunca recusei uma luta, aqui estou para contar a estória do "África", de Carlos Veiga e das suas intrigas, primeiro contra Renato Cardoso, depois contra o jornal que o assustava, quando chegou ao poder e entregou o chamado "dossier África" a um jornalista de terceira categoria que trabalhava sob a orientação de um conselheiro, o Eugénio Inocêncio, hoje um rico comerciante cabo-verdiano que criou uma poderosa rede de distribuição à sombra do poder de Carlos Veiga.

Posso mesmo começar esta longa série de estórias pela do Eugénio Inocêncio, a quem, no África, sob conselho do João Van Dunenm, chefe de redacção, se deram algumas tarefas no domínio do jornalismo económico.

O Jornal não tinha dinheiro para pagar a um jornalista económico, mas, segundo o João, ele já não tinha sequer para comer. Sempre se arranjou alguma coisa e ele aproveitou uma reestruturação gráfica do jornal para aparecer com uma coluna pessoal, com fotografia e tudo.

Um dia, na busca de apoios para que o jornal funcionasse, através de um empresário português, foi-me indicada a possibilidade de mobilizar apoios de empresários espanhóis da Extremadura, que se iriam reunir-se na capital da região.

Convidei o Eugénio a estar presente para apresentar o jornal e as perspectivas económicas do espaço do qual falávamos, que era, sobretudo, o da chamada África de Língua Oficial Portuguesa.

Para estar presente exigiu que lhe pagássemos um fato novo e sapatos. A farpela custou, na altura,(85/86) 27 contos e, no caminho para Cáceres, disse ao Engº. Gonçalves Pereira que, "para entrar naquilo também queria o dele...".

Tomei conhecimento do desejo do Eugénio e resolvi dispensá-lo, com o fato, sapatos e tudo. Por mór disso fui a tribunal, pela primeira vez na vida.

Mais tarde, como embaixador de Cabo Verde em Lisboa e em licença sem vencimento pela Agência Lusa, ficou célebre pelas contas que fazia nas alfaiatarias e outras bugigangas. Parte dos dinheiros considerados gastos em extravagâncias do tipo eram, afinal, uma forma de canalizar recursos para a segunda família do então primeiro-ministro de Cabo Verde, Carlos Veiga.

Para primeiro dia já chega. Daqui para a frente, vou tentar contar tudo.
É só preciso ter paciência.

Eles têm as televisões, as rádios, os jornais e eu tenho-me a mim e aos meus amigos. Também conto com os meus inimigos, que ,afinal, me prestigiam.

4 comentários:

beatrice disse...

Eis o Leston que eu conheço!
Dá-lhes... Com força!
São todos uns f.p.

Anónimo disse...

Que nunca te doam as mãos.
Foi uma honra ter colaborado nesse jornal onde senti uma alegria irrepetível e de que tenho tantas saudades.
É uma honra ser teu amigo.

Fernando Alves

Leonel Cosme disse...

Meu caro Bandeira
Quando, em 1988, ambos fizemos uma viagem profissional a Cabo Verde (para que eu, recém-chegado de Angola, conhecesse de perto o povo e a terra sobre quem iria escrever no espaço que o jornal me confiava), â pergunta que, no final da viagem, o saudoso Renato Cardoso, então secretário de Estado, me dirigiu sobre como eu achara o seu país, respondi : "Encontrei em Cabo Verde o país que eu desejava que ele fosse." Então, os dirigentes eram pobres, viviam em apartamentos ou casas alugadas, iam a pé para o serviço, não tinham guarda-costas nem contas numeradas nos bancos da Suíça. Não se ouvia nenhuma ladrada em derredor e qualquer caravana podia passar tranquilamenete na Pracinha.
Depois, houve coisas que mudaram. O Vento Leste (os ventos de todas as direcções) começaram a soprar transportando miasmas de várias espécies (Renato Cardoso foi misteriosamenente assassinado).
Foi sobre aquele inolvidável "encontro" que escrevi artigos no "ÁFRICA" e ainda hoje, mais de dez anos passados, continuo a escrever, em livro e no único periódico que conheço em Portugal semelhante ao "ÁFRICA": sem dono, sem patrão, sem preço, onde a liberdade de opinião não se compra nem se vende - é uma prática, não uma saudade e menos ainda uma utopia.
Não se amofine demasiado. A "nossa" caravana continuará a passar, com ou sem ladrada. Em Cabo Verde continua a haver terra para receber as boas sementes e os lacraus só são perigosos para os cegos e os incautos.

Viagem pelas ruas da amargura disse...

Nunca é tarde para falar verdade. E se isto é verdade, o princípio aplica-se a toda a África, o continente e a sua Comunicação Social. Força aí! Aperte com eles