2005/07/20

O Fim de um Projecto

A última edição do jornal "África" foi publicada a 31 de Maio de 1991, dia em que o governo de Cavaco Silva, como Durão Barroso como ministro dos Negócios Estrangeiros assinou um acordo em Bicesse, entre o MPLA e a UNITA - mais um acordo de" paz".
A minha posição sobre tal acontecimento foi a de o considerar mais uma palhaçada que não conduziria a nada. Já o tinha escrito há muitos anos: a guerra em Angola só terminaria com a morte de Jonas Savimbi. Sabia do que falava, conhecia profundamente a personalidade do Jonas Malheiro ( de quem tinha sido contemporâneo no LiceuDiogo Cão, em Sá da Bandeira).
Sabia que seria mais um acordo, igual ao do Alvor, e Nakuru, de Lusaka e tantos outros, inventados uns, abortados outros.
Nesse mesmo dia, fui convidado pelo Carlos Veríssimo, da RDP, para ir comentar o acordo. Eu tinha acabado de anunciar o fim do projecto pelo qual tinha lutado tantos anos, no qual acreditava. Não era, portanto, o melhor momento para prestar tal colaboração. Traduzi da pior maneira o que pensava do acordo de Bicesse. Infelizmente, nem a pouca habilidade com que disse que "Cavaco não percebia nada de África, ...pois se ele até era do Poço de Boliqueime..." serviu para salvar o acordo. O Carlos Veríssimo ficou pálido, eu aproveitei para sair do estúdio sem que ele recobrasse a fala e a guerra continuou.
Mas, o "África" tinha acabado. Estávamos em Maio de 1991, 31.
Em Setembro de 1990, 19, Renato Cardoso tinha sido morto a tiro, na Praia do Quebra-Canela.
Era um Sábado e, na quinta-feira anterior, tinha-me feito o telefonema mais extraordinário que alguma vez dele recebi.
Um parêntesis para explicar que Renato Cardoso e eu mantinhamos uma amizade muito sólida, com um acordo expresso sobre relações profissionais.
Ele desempenhou funções muito importantes enquanto eu fui delegado da ANOP na Cidade da Praia durante três anos e continuou a fazê-lo, quando eu resolvi apanhar, já em andamento, o projecto do "África Jornal", que o Xavier de Figueiredo tinha resolvido fazer avançar de uma forma extemporânea. Era um projecto sobre o qual vinhamos falando desde 1978, altura em que ele era delegado da ANOP na Guiné Bissau e eu professor cooperante no Liceu da capital.
Voltarei mais tarde a estes pormenores.
Interessa, agora, falar do telefonema de Renato Cardoso, na quinta-feira, dia 17 de Setembro, durante o qual, utilizando uma linguagem mais ou menos cifrada me pediu para ir à Cidade da Praia ( eu estava em Lisboa), porque precisava muito de falar comigo.
Estava com receio... palavra esquisita para quem o conheceu. E explicou: o Presidente da República, Aristides Pereira, tinha-o chamado para, no meio de uma conversa rendilhada, lhe dizer que o Carlos Veiga, o jurista que mais dinheiro ganhava em Cabo Verde naquela altura, o tinha informado que ele, Renato Cardoso, andava a manobrar nos bastidores para formar um partido político alternativo ao PAICV.
Estávamos, em 1990, altura em que o PAICV, sob o impulso de Renato Cardoso e de Pedro Pires, se preparava para terminar com o sistema de partido único. Ao contrário do que a maioria da opinião pública cabo-verdiana pensava na altura, o adversário da abertura era Aristides Pereira.
Renato Cardoso era uma inteligência ímpar. Em Cabo Verde, só Amílcar Cabral se lhe pode comparar. Sabia que o sistema de partido único tinha acabado. Ele tinha feito parte de uma delegação do PAICV que, na sequência das conversações para a Independência da Namíbia, retirada das tropas cubanas de Angola (pormenores de que falarei lá mais para a frente), tinha permanecido em Cuba durante mais de uma semana - Pedro Pires chefiava tal delegação - tinha tentado convencer Fidel de Castro que o sistema de partido único não funcionava em África.
Renato Cardoso, quando passava frente à multidão que se preparava para asssitir ao Festival da Baía das Gatas, em S. Vicente, donde era natural dizia : "estão aqui trinta mil pessoas, eu conheço 15 mil as outras 15 mil conhecem-me a mim". E sorria!
Se havia alguma unanimidade em Cabo Verde naquele ano da graça de 1990 - em Setembro - chamava-se Renato Cardoso. Ele poderia ter feito a transição de forma inteligente, sem ter que dividir a sociedade cabo-verdiana como Carlos Veiga fez, apoiando a campanha da insídia contra os dirigentes de então, feita através do boato, da calúnia, dos panfletos anónimos, que ele nunca condenou e de que sempre se aproveitou - ele e a Igreja, através do Bispo.
Renato Cardoso foi abatido a tiro, numa emboscada em que, de alguma forma, participou uma mulher. Foi considerado um crime passional, levado a cabo por um marginal, que nunca chegou a ser identificado, numa situação absolutamente indefensável. Perdeu, de uma vez só, a vida e o prestígio.
Mais tarde, conversei com um dos inspectores que a Polícia Judiciária Portuguesa mandou a Cabo Verde para ajudar nas investigações. Estava estupefacto com o profissionalismo de quem tinha eliminado todas as pistas...
Informações de outra natureza levam-me a concluir, de maneira insofismável, que aquele encontro foi preparado contra o Renato.
Sem Renato Silos Cardoso, o caminho ficou livre prara Carlos Veiga, que, de resto, de forma pública e notória, se organizava politicamente para aparecer como alternativa ao PAICV. Acabou por ganhar as eleições em Janeiro de 1991.
É verdade que nesse mês de Setembro fui à Cidade da Praia, mas demasiado tarde: o Renato já estava enterrado e a minha dôr foi ampliada pelo facto de ter sabido que David Hoppfer Almada - um dos seus mais pertinazes adversários - tinha feito o elogio fúnebre do meu amigo
Fui mostrar, com os olhos, o meu descontentamento. Pedro Pires estava fora, em viagem de Estado, tinhamo-nos encontrado no aeroporto de Lisboa, sem palavras.
Aos que, de alguma maneira, estão interessados nesta narrativa, devo uma explicação: Cabo Verde beneficiou claramente da minha actuação como jornalista: primeiro, como correspondente da ANOP e depois como director de um jornal especialmente direcccionado para a problemática africana. Todavia, esse benefício tinha como único fundamento a convicção profunda - que hoje mantenho - de que o único povo que tinha beneficiado com a Independência tinha sido o de Cabo Verde.
Naquele país, depois de ter deixado Angola e ter passado pela Guiné Bissau, encontrei a terra a que gostaria de chamar minha e os homens a quem gostei de considerar camaradas. Do ponto de vista profissional, todavia, sempre cumpri o meu dever. Para ilustrar este facto, mais tarde descreverei o modo como consegui entrar no domínio de alguns "top secrets" da diplomacia cabo-verdiana, facto que lhes provocou alguns dissabores.
Este parêntesis serve igualmente para se entender a pressa que tenho de explicar a relação do "África" com o poder saído das eleições de Janeiro de 1991.
Amanhã será.

4 comentários:

Anónimo disse...

Olá, sou estudante em Portugal e gostaria de saber mais a cerca disso. Se sim meu email é
DQferreira@gmail.com

Anónimo disse...

seria optimmo que escrevesse mais acerca do assunto, pois a memória é curta e nós das ilhas precisamos conhecer\lembrar mais coisas, além das histórias sobre Cabral

Nelson Timas disse...

Boa noite, caro irmão. Queria saber mais sobre o Renato Cardoso. Nunca tive mais informações e se não se importa-se entra em contacto por favor comigo. nelsontimas@gmail.com.

Anónimo disse...

Diga claramente que quem mandou matar Renato Cardoso foi Carlos Veiga. E, não Pedro Pires ou Aristides Pereira, como até os dias de hoje, nos andam a vender essa cabala, que é uma das maiores farsas da história caboverdiana do pós-independência.
Renato Cardoso, delfim de Pedro Pires, invejado e cobiçado por Carlos Veiga, desde há muito, que era um acérrimo defensor de uma profunda reforma na administração pública caboverdiana, que de entre muitas mudanças radicais que propunha, estava a tão propalada transição para a democracia.
Ironicamente, quem mais louros colheu com a morte de Renato Cardoso é Carlos Veiga, que usado Renato Cardoso como das suas bandeiras de excelência da sua campanha política.
Era necessário um mártir fabricado para sedimentar a causa "democrática".
Que perguntem ao Ferreira que foi um dos comandantes da Polícia, da ordem directa recebida por telefone, de Carlos Veiga, enquanto Procurador Geral da República, para matar o seu tio (facto na altura desconhecido pelo próprio Carlos Veiga), um proprietário de terras de São Domingos, a quando da agitação dos rendeiros provocada pela escória do MpD (Jacinto Santos, Carlos Veiga, irmãos Pinto Monteiro de Assomada, etc..) na febre da reforma agrária.
Acabemos de vez com essa farsa.