2005/07/24

A Estratégia do "África"

Já a prometi. Pode ser que sirva alguém. o "África" não era um negócio como depois aconteceu a inúmeros jornais "virados" para África, sem calendário, sem linha editorial, a explorarem apenas a vaidade dos presidentes, dos ministros e de algumas mulheres deles. De resto, os jornais, em Portugal também se transformaram em instrumentos de negócios - eles próprios eram (são) um negócio.
O "África", desde a sua edição "África Jornal", publicada à pressa pelo Xavier de Figueiredo, em 1984 - estava eu ainda em Cabo Verde como delegado da ANOP - tinha uma estratégia editorial, definida por mim próprio: um jornal, cuja principal função seria a de criar uma plataforma de informação entre o Norte e o Sul, servindo-se da língua portuguesa como instrumento e negando, como princípio a ideia de que havia um conflito Leste-Oeste e um diálogo Norte- Sul. Para o jornal "África", era exactamente o contrário: conflito Norte-Sul e diálogo Leste-Oeste.
Parece que o tempo nos veio a dar razão. Isso hoje não se discute.
Utilizaria um espaço de publicação que pouco tinha a ver com as realidades que tratava e, por isso, não estaria sujeito às pressões políticas do conhecimento fácil, do telefone acessível, do interesse anunciado, sugerido.
Do ponto de vista económico, como não tinha ninguém com família rica (sei lá...tipo Balsemão ou Ricardo Salgado...) tinha que ter uma estratégia multi-dependente, para ser independente. Isto é: na busca do apoio de todos construiria a sua independência editorial - um princípio fundamental, sem o qual não há um jornal que possa trasnmitir credibilidade a quem o lê.
Em princípio, sempre imaginei que Angola seria o estado mais virado para apoiar o projecto: conheciam-se, eu era dissidente do MPLA, mas tinha contribuído, muito, para a chegada daquele movimento ao poder . Há uma parte da história do Sul de Angola que não pode escrever-se sem o meu nome. No domínio da informação, há alguns episódios, a nível nacional, que também têm a minha acção inscrita. Fui um professor esforçado, um gestor interessado e sacrificado. Lutei a sério pela Independência de Angola.
Enganei-me: O novo poder angolano não conhecia o país e era um grupo de garimpeiros. Achavam que de tudo faziam dinheiro, inclusivé de um jornal com uma estratégia que implicava um anti-savimbismo puro, saudável, afirmado desde a primeira hora.
Como se percebe, a Unita - que era Savimbi - não era alternativa, embora o desejasse. Savimbi era mais esperto nesse domínio, mas também me reconhecia como seu inimigo. Prometeu "pendurar-me".
Moçambique desenvolvia uma guerra difícil com a África do Sul, mas também tinha gente convencida de que era capaz de realizar um projecto de comunicação capaz de suplantar o "África". Aquino de Bragança,conselheiro de Samora Machel e que com ele morreu no desastre de de 19 de Outubro de 1989, sempre me abordava num tom crítico e era, claramente, o homem que impedia uma aproximação de Samora Machel, o presidente que decidia tudo.
Por outro lado, um punhado verdadeiramente heróico de jornalistas moçambicanos desenvolvia o projecto da AIM, com Carlos Cardoso à frente. Todos eles - meia dúzia - achavam que eram capazes de conseguir vencer o Mundo. Acabámos, por, na medida do possível, apoiá-los. O Tomaz, que era correspondente da AMI em Lisboa, depois do Luís Lemos foi nosso colaborador.
A Guiné Bissau representava um regime sem rei nem roque. Os ministros ficavam à espera que entrasse algum dinheiro no Banco Central para viajarem. O Ministro dos negócios estrangeiros, Saúde Maria roubava as ajudas de custo que deviam ser pagas aos funcionários do ministério que com ele viajavam para Nova Yorque a fim de assistirem à Assembleia Geral da ONU.
Eu tinha sido expulso da Guiné Bissau e denunciei, tanto quanto pude, todos os crimes levados a cabo por Nino Vieira e a sua trupe. Portanto, era mais um a ficar do outro lado.
Ficava Cabo Verde e Portugal, mais a ponte que ambos poderiam fazer com Angola, sobretudo, e com o Brasil.
A estratégia de ligação informativa entre o Norte e o Sul passava pelo Brasil. Tentámos, de resto, lançar algumas pedras em S. Paulo, mas a diferença de linguagem conduziu-nos ao fracasso: quando eu falava de publicidade, o nosso homem pensava em advertising ( à americana), pelo que precisava- também - de dinheiro.
O Godofredo Stockinger, um austríaco apaixonado pelo Brasil e por Cabo Verde ajudou de várias formas, até com dinheiro. Mas, também não conseguimos.
Com os empresários portugueses foi e é (ao que parece) uma desgraça. O que eles querem é que não se fale deles, pela simples razão de que estão convencidos que "conhecem um preto qualquer" que, com uns trocados lhes vai abrir o negócio da vida deles. É na ambição estúpida dos empresários portugueses - e não só - e na pobreza miserabilista da maior parte dos dirigentes africanos que começa, se prolonga e se eterniza a corrupção. Jogo limpo? Com publicidade e as regras dos negócios bem claras? Isso é para a União Europeia ou para os Estados Unidos...quando é!

3 comentários:

toix disse...

Tive o prazer de ter colaborado com o "África", ilustrando com algumas fotografias minhas uma reportagem do meu amigo João Van Dunem sobre crianças desalojadas no Jamor, nos anos 80. Um projecto jornalístico sobre a Lusofonia é um sonho bem giro! Talvêz um dia, se o vento mudar...

toix disse...

o acento do talvez podes apagar?

ELCAlmeida disse...

Parabéns Leston Bandeira por recordar um dos poucos jornais mais completos que conheci sobre África.
Creio que ainda tenho alguns exemplares. Exemplares esses que me ajudaram em alguns trabalhos para a Licenciatura - não fosse eu angolano e com tendência natural de fazer trabalhos sobre o nosso continente - e a completar a minha dissertação para o Mestrado, bem assim, alguns pequenos ensaios elaborados no âmbito desse mesmo mestrado.
Será altura, talvez, de voltar o África. Assim queiram as "boas vontades". Só que, quando quero, também sei ser pragmático, e essas "boas-vontades" penso que já há muito desapareceram. Principalmente em Angola e no actual Palácio das Necessidades português.
No entanto, vou sempre aguardando.
Cumprimentos
Eugénio Costa Almeida